Naquela semana Maykon havia
recebido o pedido ridículo de um pseudo-escritor de horror. Sua escrita era ruim
e enfadonha, suas descrições eram infantis e caricatas, por vezes, Maykon se
pegou rindo daquilo que supostamente deveria assustar. O designer tentava dar
ordem aos seus rabiscos, mas nada aceitável saía do seu rascunho. Foi até o
banheiro e jogou um pouco de água na cara. Sentou-se novamente em frente ao seu
computador, notou que faltava algo no esboço deixado aberto. Havia um recorte
em branco sobre o monstro que ele criava. Ainda em meio à confusão e cansaço,
Maykon sentiu um toque frio nas suas costas. Pelo reflexo da tela, viu uma
massa escura e sem forma parada atrás dele. Tremeu. A ilustração inacabada foi
se moldando, assumindo a forma de Maykon. Sem dar tempo para reação, a criatura
moldou seus braços em duas pontas de lápis e atravessou Maykon, que arquejou de
dor e cuspiu sangue. E então, o impostor, o empurrou através da tela do
computador.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
MINICONTO: RASCUNHO - THIAGO LUCARINI
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
MINICONTO: QUEBRA-CABEÇA - THIAGO LUCARINI
Leonardo sentiu todo
seu corpo enrijecer. Um punhado de seu cabelo foi erguido. Perplexo, Léo olhou
no espelho da sala de jantar. A personagem mais cruel que sua escrita já criou,
estava bem ao seu lado. Mayanna ou a Quebra-cabeça lhe sorriu, com sua aura
densa e maligna de bruxa. Os cabelos do escritor foram puxados com mais
violência por May. Ele não gritou. Era o que ela queria.
Descontente, a bruxa
bateu sua cabeça com na mesa. A comida quente no prato recém posto entrou em seus
olhos, queimando. Concomitante, o utensílio se quebrou, cortando sua testa. May
o puxou de volta. Não ousou gritar.
Sua cabeça foi
arremessada de novo, dessa vez sobre as lascas de porcelana. Os cacos retalharam
seu rosto como se tivessem fome. Seu nariz balançou por um fio de pele. Só
então, Leonardo gritou. Era mais fácil dar o que May ansiava. Afinal, ele a
conhecia melhor do que ninguém.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
MINICONTO: PARANOIA - THIAGO LUCARINI
Júlia encarou-se no
espelho, apalpando a barriga como tantas outras vezes.
— Amor, não há nada
dentro de você.
Independente do que
Agenor dissesse ou os médicos e seus exames falhos, Júlia sabia que tinha algo
dentro dela, crescendo, expandindo-se. Não era um bebê. Era algo mais,
inexplicável, fora da realidade.
Tateou sua carne
morna um pouco mais.
Agenor a observava,
descrente.
— Eu não estou louca
— retrucou.
Já à mesa, Júlia
tomava seu café em silêncio, Agenor mexia no celular. De repente, ela sentiu
aquela coisa andar por baixo da sua pele. Sem pensar, pegou uma faca de serra
que havia deixado próxima.
— Te peguei,
desgraçado. — Berrou Júlia, enfiando a faca na própria barriga.
Agenor correu para
socorrê-la e em meio ao sangue, ele viu parte de algo não humano que Júlia
acertou.
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
MINICONTO: MÃO AMIGA - THIAGO LUCARINI
Deixou o copo cheio cair e se espatifar. Gritou por socorro, mas lembrou-se que estava sozinha. Uma mão cadavérica, arroxeada, com pedaços faltosos de pele e carne, saía de dentro do bolo na geladeira e segurava o braço de Taize com firmeza. Ela se sacudia, tentando desvencilhar-se, porém a mão sobrenatural era muito mais forte. Mais cedo, naquele dia, recebeu de Letícia, aquele bolo. Talvez, Leti, não fosse tão sua amiga assim.
Aflita, Taize deu um solavanco para trás, escorregou num caco de vidro e tombou, batendo a cabeça na borda da pia. Notou, mesmo zonza, que estava livre, porém cheia de marcas. A mão podre devagarzinho fechou a porta da geladeira. Taize em pânico e receosa, só pensava em como a tiraria de lá sem ser arrastada para o seu mundo frio e sombrio.
MINICONTO: BARBA, CABELO E BIGODE
domingo, 11 de outubro de 2020
MINICONTO: O LAMBE-PÉS - THIAGO LUCARINI
Espantado, eu não
conseguia me mexer. Algo estava aos pés da minha cama. Na penumbra da
madrugada, eu via sua cabeça desproporcional, emoldurada por olhos vermelhos
assustadores, presa a um corpo diminuto.
Aquilo, seja lá o que
fosse, ante minha imobilidade, descobriu meus pés com nítido prazer. Abriu sua
bocarra com dentes finos e pontiagudos, e dela deslizou uma língua comprida com
protuberâncias rugosas. Saliva escorreu sobre meus pés. Eu tremia, e diante meu
desespero, a criatura abocanhou meus dois pés de uma vez só. Lambendo-os,
mordiscando-os. Até que eu senti uma dor insuportável. Sangue esguichou nas
paredes. O monstro mastigava meus pés com satisfação enquanto eu gritava,
perplexo.





