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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

MINICONTO: RASCUNHO - THIAGO LUCARINI

 

Naquela semana Maykon havia recebido o pedido ridículo de um pseudo-escritor de horror. Sua escrita era ruim e enfadonha, suas descrições eram infantis e caricatas, por vezes, Maykon se pegou rindo daquilo que supostamente deveria assustar. O designer tentava dar ordem aos seus rabiscos, mas nada aceitável saía do seu rascunho. Foi até o banheiro e jogou um pouco de água na cara. Sentou-se novamente em frente ao seu computador, notou que faltava algo no esboço deixado aberto. Havia um recorte em branco sobre o monstro que ele criava. Ainda em meio à confusão e cansaço, Maykon sentiu um toque frio nas suas costas. Pelo reflexo da tela, viu uma massa escura e sem forma parada atrás dele. Tremeu. A ilustração inacabada foi se moldando, assumindo a forma de Maykon. Sem dar tempo para reação, a criatura moldou seus braços em duas pontas de lápis e atravessou Maykon, que arquejou de dor e cuspiu sangue. E então, o impostor, o empurrou através da tela do computador.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

MINICONTO: QUEBRA-CABEÇA - THIAGO LUCARINI


Leonardo sentiu todo seu corpo enrijecer. Um punhado de seu cabelo foi erguido. Perplexo, Léo olhou no espelho da sala de jantar. A personagem mais cruel que sua escrita já criou, estava bem ao seu lado. Mayanna ou a Quebra-cabeça lhe sorriu, com sua aura densa e maligna de bruxa. Os cabelos do escritor foram puxados com mais violência por May. Ele não gritou. Era o que ela queria.

Descontente, a bruxa bateu sua cabeça com na mesa. A comida quente no prato recém posto entrou em seus olhos, queimando. Concomitante, o utensílio se quebrou, cortando sua testa. May o puxou de volta. Não ousou gritar.

Sua cabeça foi arremessada de novo, dessa vez sobre as lascas de porcelana. Os cacos retalharam seu rosto como se tivessem fome. Seu nariz balançou por um fio de pele. Só então, Leonardo gritou. Era mais fácil dar o que May ansiava. Afinal, ele a conhecia melhor do que ninguém.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

MINICONTO: PARANOIA - THIAGO LUCARINI


 

Júlia encarou-se no espelho, apalpando a barriga como tantas outras vezes.

— Amor, não há nada dentro de você.

Independente do que Agenor dissesse ou os médicos e seus exames falhos, Júlia sabia que tinha algo dentro dela, crescendo, expandindo-se. Não era um bebê. Era algo mais, inexplicável, fora da realidade.

Tateou sua carne morna um pouco mais.

Agenor a observava, descrente.

— Eu não estou louca — retrucou.

Já à mesa, Júlia tomava seu café em silêncio, Agenor mexia no celular. De repente, ela sentiu aquela coisa andar por baixo da sua pele. Sem pensar, pegou uma faca de serra que havia deixado próxima.

— Te peguei, desgraçado. — Berrou Júlia, enfiando a faca na própria barriga.

Agenor correu para socorrê-la e em meio ao sangue, ele viu parte de algo não humano que Júlia acertou.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

MINICONTO: MÃO AMIGA - THIAGO LUCARINI

Deixou o copo cheio cair e se espatifar. Gritou por socorro, mas lembrou-se que estava sozinha. Uma mão cadavérica, arroxeada, com pedaços faltosos de pele e carne, saía de dentro do bolo na geladeira e segurava o braço de Taize com firmeza. Ela se sacudia, tentando desvencilhar-se, porém a mão sobrenatural era muito mais forte. Mais cedo, naquele dia, recebeu de Letícia, aquele bolo. Talvez, Leti, não fosse tão sua amiga assim.

Aflita, Taize deu um solavanco para trás, escorregou num caco de vidro e tombou, batendo a cabeça na borda da pia. Notou, mesmo zonza, que estava livre, porém cheia de marcas. A mão podre devagarzinho fechou a porta da geladeira. Taize em pânico e receosa, só pensava em como a tiraria de lá sem ser arrastada para o seu mundo frio e sombrio.

 

MINICONTO: BARBA, CABELO E BIGODE


        Úrsula queria exterminar seu ex, mas não antes de fazê-lo sofrer. Às três da manhã, fez os símbolos malditos e seguiu as regras do ritual. No mesmo instante, sua consciência foi transportada para dentro do corpo do demônio que brotou no quarto de Lucas. Com seus dedos de navalhas cutucou o homem que mal de mexeu. Úrsula sádica posicionou o dedo mindinho da mão de Lucas entre as lâminas afiadas e o decepou. Lucas despertou com um grito desesperador. O homem tremeu diante do ser tomado de lâminas que ali estava.
        — Por favor, não me machuque. — Implorou, segurando a mão trêmula que sangrava.
        — Foi o que eu te pedi, amor.
        Lucas reconheceu a voz de sua stalker. Úrsula na pele da criatura de lâminas vibrou ante o pavor dele. Ela o faria em picadinho e daria aos cães para comer, assim como ele fez com seu coração.

domingo, 11 de outubro de 2020

MINICONTO: O LAMBE-PÉS - THIAGO LUCARINI


Espantado, eu não conseguia me mexer. Algo estava aos pés da minha cama. Na penumbra da madrugada, eu via sua cabeça desproporcional, emoldurada por olhos vermelhos assustadores, presa a um corpo diminuto.

Aquilo, seja lá o que fosse, ante minha imobilidade, descobriu meus pés com nítido prazer. Abriu sua bocarra com dentes finos e pontiagudos, e dela deslizou uma língua comprida com protuberâncias rugosas. Saliva escorreu sobre meus pés. Eu tremia, e diante meu desespero, a criatura abocanhou meus dois pés de uma vez só. Lambendo-os, mordiscando-os. Até que eu senti uma dor insuportável. Sangue esguichou nas paredes. O monstro mastigava meus pés com satisfação enquanto eu gritava, perplexo.