Sua unha encravada e
inflamada, latejava, deixando Leandro naquele estado semiconsciente do sono.
Achou estar delirando quando começou a ouvir o tec-tec de um cortador de
unha. Pensou ser só o anseio pelo alívio. Simultaneamente, o peso de algo
afundou seu colchão, Leandro abriu os olhos e o seu choque foi tamanho que o
imobilizou. Ele estava entre as patas de uma besta, que se parecia um cão, mas
que no lugar da boca, possuía as lâminas angulosas e curvas de um cortador de
unha, da base da sua nuca saía uma alavanca metálica que sozinha, descia e
subia, provocando o tec-tec. O monstro farejou o ar até a unha encravada
cheia de pus na mão direita de Leandro e colocou o dedão entre suas lâminas e
com um tec, decepou o dedo, saboreando-o, enquanto menino agonizava aos
berros, paralisado pela opressão da besta infernal. Logo o Cortador passou para
o próximo dedo, e seria assim, até o último.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
MINICONTO: CORTADOR DE UNHAS - THIAGO LUCARINI
sábado, 24 de outubro de 2020
MINICONTO: O ALUNO TRANSFERIDO - THIAGO LUCARINI
Pollyana, a professora
regente, e Lívia, a professora de apoio, encararam-se. Alguma coisa de muito
errado acontecia com André, o aluno transferido para a C1. Após a chegada de
André na semana passada, várias crianças começaram a faltar inexplicavelmente.
André carregava uma energia opressiva. Seu laudo era quilométrico, mas Lívia
pressentia algo além. Naquela manhã de segunda-feira antes do recreio, do nada,
André a emitir sons guturais. As outras crianças juntaram-se nos cantos com
medo. Porta e janelas foram misticamente lacradas. Marcas malditas apareceram
no corpo de André, e delas, numa explosão de sangue nasceram chagas profundas
que encharcaram as professoras que tentavam ajudá-lo. Do sangue derramado no
piso floresceram rachaduras que cresciam sucedidas de tremores. Gritos de
crianças e adultos foram ouvidos por toda escola, quando chifres brotaram na
testa de André e uma cauda surgiu atrás dele. Vários lápis de cor voaram até a mão do
maldito, formando um tridente que acendeu em fogo.
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
MINICONTO: QUEBRA-CABEÇA - THIAGO LUCARINI
Leonardo sentiu todo
seu corpo enrijecer. Um punhado de seu cabelo foi erguido. Perplexo, Léo olhou
no espelho da sala de jantar. A personagem mais cruel que sua escrita já criou,
estava bem ao seu lado. Mayanna ou a Quebra-cabeça lhe sorriu, com sua aura
densa e maligna de bruxa. Os cabelos do escritor foram puxados com mais
violência por May. Ele não gritou. Era o que ela queria.
Descontente, a bruxa
bateu sua cabeça com na mesa. A comida quente no prato recém posto entrou em seus
olhos, queimando. Concomitante, o utensílio se quebrou, cortando sua testa. May
o puxou de volta. Não ousou gritar.
Sua cabeça foi
arremessada de novo, dessa vez sobre as lascas de porcelana. Os cacos retalharam
seu rosto como se tivessem fome. Seu nariz balançou por um fio de pele. Só
então, Leonardo gritou. Era mais fácil dar o que May ansiava. Afinal, ele a
conhecia melhor do que ninguém.
domingo, 11 de outubro de 2020
MINICONTO: O LAMBE-PÉS - THIAGO LUCARINI
Espantado, eu não
conseguia me mexer. Algo estava aos pés da minha cama. Na penumbra da
madrugada, eu via sua cabeça desproporcional, emoldurada por olhos vermelhos
assustadores, presa a um corpo diminuto.
Aquilo, seja lá o que
fosse, ante minha imobilidade, descobriu meus pés com nítido prazer. Abriu sua
bocarra com dentes finos e pontiagudos, e dela deslizou uma língua comprida com
protuberâncias rugosas. Saliva escorreu sobre meus pés. Eu tremia, e diante meu
desespero, a criatura abocanhou meus dois pés de uma vez só. Lambendo-os,
mordiscando-os. Até que eu senti uma dor insuportável. Sangue esguichou nas
paredes. O monstro mastigava meus pés com satisfação enquanto eu gritava,
perplexo.



