Nani e Kadu levantaram
assustados como choramingo de Pantera, a pit bull de estimação. Instantes antes
um forte clarão iluminou toda a região. Kadu foi o primeiro a notar Pantera
caída no canto da área com um furo chamuscado no peito. Não havia sangue. Nani
levou a mão para consolar a cadela que parou de respirar antes do toque da
dona. O casal atônito e confuso olhava a cena. Sem chance de se recuperarem do
choque, viram o corpo de Pantera começar a ondular com vários calombos. Kadu
puxou a esposa de perto do animal, que se avolumava e crescia a proporções
inimagináveis. Seu corpo expandiu como espuma, quebrando o telhado. Pantera
atingiu um corpanzil com mais de 50 metros de altura, permanecendo bípede.
Reavivada, latiu provocando um estrondo ensurdecedor, uma imensa bola de baba
caiu sobre o casal, imobilizando-os. Pantera achando equilíbrio pisoteou a
casa, o carro e sem perceber também esmagou seus donos indefesos diante do
gigantesco desastre.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
MINICONTO: PANQUECAS NA MADRUGADA - THIAGO LUCARINI
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
MINICONTO: CORTADOR DE UNHAS - THIAGO LUCARINI
Sua unha encravada e
inflamada, latejava, deixando Leandro naquele estado semiconsciente do sono.
Achou estar delirando quando começou a ouvir o tec-tec de um cortador de
unha. Pensou ser só o anseio pelo alívio. Simultaneamente, o peso de algo
afundou seu colchão, Leandro abriu os olhos e o seu choque foi tamanho que o
imobilizou. Ele estava entre as patas de uma besta, que se parecia um cão, mas
que no lugar da boca, possuía as lâminas angulosas e curvas de um cortador de
unha, da base da sua nuca saía uma alavanca metálica que sozinha, descia e
subia, provocando o tec-tec. O monstro farejou o ar até a unha encravada
cheia de pus na mão direita de Leandro e colocou o dedão entre suas lâminas e
com um tec, decepou o dedo, saboreando-o, enquanto menino agonizava aos
berros, paralisado pela opressão da besta infernal. Logo o Cortador passou para
o próximo dedo, e seria assim, até o último.
MINICONTO: LAÇOS - THIAGO LUCARINI
Não reconheceram nenhuma
construção ou presença de humanos. Idê com 12 anos e Arlete com 3, tinham ido
dormir na noite passada, cada uma em sua cama, e simplesmente, haviam acordado numa
ilha deserta. As irmãs estavam à beira-mar numa região de relva baixa, e pouco
a frente, uma densa floresta se erguia recostada a montanhas escarpadas. Andaram
pela orla até perto do meio-dia, escutaram o sibilar de cobras, tudo as
assustavam, não acharam água potável, o sol as castigava, suas barrigas
roncavam. Idê viu lágrimas silenciosas descer pelo rosto da irmã. Um estrondo. Levantaram-se
e olharam rumo ao barulho. Poderia ser ajuda. Ilusão. Viram árvores caírem
dentro da selva como se fosse gravetos, pássaros voaram em debandada, a terra
tremia. Algo grande vinha de encontro a elas. Arlete e Idê se abraçaram e
fecharam os olhos.
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
MINICONTO: ACEITA UMA DOAÇÃO? - THIAGO LUCARINI
Taty conheceu Fabrício num
desses estandes de shopping que vendem livros mais baratos. Taty queria fazer
novas aquisições e Fabrício desfazer-se de dois exemplares. O cara astuto
tratou logo de se aproximar de Taty e oferecer a doação. Vendo uma oportunidade
de ouro, Taty aceitou o presente, sem perceber o aspecto decrépito do garoto.
Naquela noite, Taty começou a folhear um dos livros que era de horror, porém
cansada, logo pegou no sono. Lá pelas tantas, Taty acordou com uma mulher
medonha ao lado da sua cama. Ela usava pouca roupa e sua cabeça era coberta por
uma campânula de sino, duas moedas enferrujadas emulavam os olhos. Seu corpo
era todo ressequido e fedido. Taty reconheceu a vilã do livro ganhado, que aparecia
já nas primeiras páginas. O ser macabro agarrou o braço da garota, balançou a
cabeça fazendo o som grave de sino ecoar, deixando um estigma em Taty que
gritou assustada e com dor. Sabia, instintivamente, que deveria passar os
livros adiante.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
MINICONTO: RASCUNHO - THIAGO LUCARINI
Naquela semana Maykon havia
recebido o pedido ridículo de um pseudo-escritor de horror. Sua escrita era ruim
e enfadonha, suas descrições eram infantis e caricatas, por vezes, Maykon se
pegou rindo daquilo que supostamente deveria assustar. O designer tentava dar
ordem aos seus rabiscos, mas nada aceitável saía do seu rascunho. Foi até o
banheiro e jogou um pouco de água na cara. Sentou-se novamente em frente ao seu
computador, notou que faltava algo no esboço deixado aberto. Havia um recorte
em branco sobre o monstro que ele criava. Ainda em meio à confusão e cansaço,
Maykon sentiu um toque frio nas suas costas. Pelo reflexo da tela, viu uma
massa escura e sem forma parada atrás dele. Tremeu. A ilustração inacabada foi
se moldando, assumindo a forma de Maykon. Sem dar tempo para reação, a criatura
moldou seus braços em duas pontas de lápis e atravessou Maykon, que arquejou de
dor e cuspiu sangue. E então, o impostor, o empurrou através da tela do
computador.




