Era dia de eleição no
inferno. Gustavo vacilou diante da urna. Teria que colocar um dedo na boca de
uma sanguessuga vampiresca, deixá-la beber uma gota do seu plasma e induzir sua
vontade através do pensamento. Um painel contabilizava os votos. Gustavo tinha
que escolher muito bem, o Eleito, ou ele perderia os poucos direitos que
exercia e padeceria nos abusos punitivos. Deveria selecionar o menos pior
dentre os infernais. Tentar acreditar numa esperança inexistente. Independente
de quem vencesse, todos estariam suspensos de castigos por um ano. Mas como
seria pelo próximo milênio? A urna viva, sedenta o olhava impaciente. Gustavo
era um fiel na crença de que na dor não há glória, a urna que esperasse. Sua
eternidade estava em jogo, por mais que todos os candidatos ora ou outra se
repetissem. A escolha não era real e estava ciente daquilo que viria. O voto
era uma esperança onírica e leviana, ou seja, só mais uma punição disfarçada de
prêmio. Gustavo colocou o dedo na boca da sanguessuga demoníaca. Ele era a
última alma a votar no status quo do submundo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
MINICONTO: PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO - THIAGO LUCARINI
MINICONTO: PANQUECAS NA MADRUGADA - THIAGO LUCARINI
Nani e Kadu levantaram
assustados como choramingo de Pantera, a pit bull de estimação. Instantes antes
um forte clarão iluminou toda a região. Kadu foi o primeiro a notar Pantera
caída no canto da área com um furo chamuscado no peito. Não havia sangue. Nani
levou a mão para consolar a cadela que parou de respirar antes do toque da
dona. O casal atônito e confuso olhava a cena. Sem chance de se recuperarem do
choque, viram o corpo de Pantera começar a ondular com vários calombos. Kadu
puxou a esposa de perto do animal, que se avolumava e crescia a proporções
inimagináveis. Seu corpo expandiu como espuma, quebrando o telhado. Pantera
atingiu um corpanzil com mais de 50 metros de altura, permanecendo bípede.
Reavivada, latiu provocando um estrondo ensurdecedor, uma imensa bola de baba
caiu sobre o casal, imobilizando-os. Pantera achando equilíbrio pisoteou a
casa, o carro e sem perceber também esmagou seus donos indefesos diante do
gigantesco desastre.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
MINICONTO: CORTADOR DE UNHAS - THIAGO LUCARINI
Sua unha encravada e
inflamada, latejava, deixando Leandro naquele estado semiconsciente do sono.
Achou estar delirando quando começou a ouvir o tec-tec de um cortador de
unha. Pensou ser só o anseio pelo alívio. Simultaneamente, o peso de algo
afundou seu colchão, Leandro abriu os olhos e o seu choque foi tamanho que o
imobilizou. Ele estava entre as patas de uma besta, que se parecia um cão, mas
que no lugar da boca, possuía as lâminas angulosas e curvas de um cortador de
unha, da base da sua nuca saía uma alavanca metálica que sozinha, descia e
subia, provocando o tec-tec. O monstro farejou o ar até a unha encravada
cheia de pus na mão direita de Leandro e colocou o dedão entre suas lâminas e
com um tec, decepou o dedo, saboreando-o, enquanto menino agonizava aos
berros, paralisado pela opressão da besta infernal. Logo o Cortador passou para
o próximo dedo, e seria assim, até o último.
MINICONTO: LAÇOS - THIAGO LUCARINI
Não reconheceram nenhuma
construção ou presença de humanos. Idê com 12 anos e Arlete com 3, tinham ido
dormir na noite passada, cada uma em sua cama, e simplesmente, haviam acordado numa
ilha deserta. As irmãs estavam à beira-mar numa região de relva baixa, e pouco
a frente, uma densa floresta se erguia recostada a montanhas escarpadas. Andaram
pela orla até perto do meio-dia, escutaram o sibilar de cobras, tudo as
assustavam, não acharam água potável, o sol as castigava, suas barrigas
roncavam. Idê viu lágrimas silenciosas descer pelo rosto da irmã. Um estrondo. Levantaram-se
e olharam rumo ao barulho. Poderia ser ajuda. Ilusão. Viram árvores caírem
dentro da selva como se fosse gravetos, pássaros voaram em debandada, a terra
tremia. Algo grande vinha de encontro a elas. Arlete e Idê se abraçaram e
fecharam os olhos.
MINICONTO: DEPOIS DA COLHEITA DE COGUMELOS - THIAGO LUCARINI
Deise e Daniela não sabiam
o que era andar nas ruas sem proteção, aquela parafernália de astronautas
cedida pelo governo. Viam as notícias sobre o ‘derretimento’ e que só dentro de
casa era seguro, graças ao equipamento de purificação do ar. A guerra nuclear
alterou para sempre a atmosfera terrestre, tornando-a corrosiva para os humanos.
Porém, para as gêmeas de oito anos, a linha entre fantasia e realidade era bem
tênue. Daniela convenceu Deise, de que tudo aquilo não passava de superproteção
dos pais, pois nunca tinha visto, ao vivo, alguém derreter. Daniela era uma
negacionista dos fatos. Infiltrada com as ideias da irmã, Deise cedeu ao plano.
Ao final daquela tarde, foram para o jardim, ambas saíram de casa com os trajes
de segurança. Daniela encarou a irmã: “Pronta?” Deise fez um gesto de positivo
e levantou o capacete, automaticamente, a garota começou a derreter aos gritos,
seu corpo virou uma poça de pus aos pés de Daniela que não se abalou, pois ela
podia até ser contrária, mas não era burra o bastante para se expor primeiro.
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
MINICONTO: ANJO DE BOA VONTADE - THIAGO LUCARINI
Copiosas lágrimas desciam
pelo rosto de camafeu de Juliane. De joelhos, ela orava por absolvição, como
uma fiel ansiava estar livre dos seus pecados, de toda a dor que causou,
suplicava a Deus com fervor por uma chance de se provar justa mais uma vez.
Juliane elevou sua voz celeste em comoção aos Céus, seu coração seguia o ritmo
de sua prece melodiosa. Todo o seu ser clamava por redenção. Esperava um sinal,
boa vontade suprema. Não erraria outra vez, não poderia, não queria passar por
aquilo de novo, a eternidade era traiçoeira e escorregadia. Não sabia se o seu
arrependimento seria o suficiente depois de tudo. Juliane estava convicta da
bondade do seu Senhor, mas Ele não era tolo. A trombeta do tribunal soou. Veredicto:
culpada. Juliane perdeu suas asas e graça e foi arremessada contra a face da
Terra, quebrando todas as suas mentiras. Depois de ser extirpada do seio da
glória, caminhou por aquele antro de perdidos e impuros, aonde, tantas vezes,
veio para exterminar humanos antes mesmo de esses saírem do ventre.
terça-feira, 27 de outubro de 2020
MINICONTO: FRANGO - THIAGO LUCARINI
Era o primeiro dia de Nando
na academia. Ele era um jovem introvertido e franzino, e deu azar com o seu
treinador, Matheus era um cavalo de 180 kg de puro músculo. Ele odiava os frangos
recém-chegados e fazia do primeiro dia deles um inferno, para que não
voltassem. Logo de cara, Matheus moeu com Nando no supino reto, ele ficava
gritando: “Força, frango!”, “Seja homem, frango.”, “Não geme, não.” Ao redor,
alguns riam. Mesmo humilhado, Hebiab continuou, não sem uma dose de ira. Ao
final do treino, o garoto estava destruído, o treinador veio para o seu lado e
lhe deu três tapas fortes nas costas. “Pensei que ia arregar, frango.” Aquilo
foi à gota que transbordou. Os olhos de Hebiab reviraram nas órbitas ficando
brancos, ele viu uma anilha de 20 kg atingir em cheio a boca de Matheus
arrancando alguns dentes e derrubando-o. “Me desculpa, cara.” – Disse Matheus,
cuspindo sangue e dentes. Nando o encarou com desprezo. Outras anilhas, dumbbells,
kettlebells e barras acertaram Matheus com uma velocidade
impressionante, esmagando, despedaçando, seus músculos inúteis.






