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terça-feira, 27 de outubro de 2020

MINICONTO: FRANGO - THIAGO LUCARINI

Era o primeiro dia de Nando na academia. Ele era um jovem introvertido e franzino, e deu azar com o seu treinador, Matheus era um cavalo de 180 kg de puro músculo. Ele odiava os frangos recém-chegados e fazia do primeiro dia deles um inferno, para que não voltassem. Logo de cara, Matheus moeu com Nando no supino reto, ele ficava gritando: “Força, frango!”, “Seja homem, frango.”, “Não geme, não.” Ao redor, alguns riam. Mesmo humilhado, Hebiab continuou, não sem uma dose de ira. Ao final do treino, o garoto estava destruído, o treinador veio para o seu lado e lhe deu três tapas fortes nas costas. “Pensei que ia arregar, frango.” Aquilo foi à gota que transbordou. Os olhos de Hebiab reviraram nas órbitas ficando brancos, ele viu uma anilha de 20 kg atingir em cheio a boca de Matheus arrancando alguns dentes e derrubando-o. “Me desculpa, cara.” – Disse Matheus, cuspindo sangue e dentes. Nando o encarou com desprezo. Outras anilhas, dumbbells, kettlebells e barras acertaram Matheus com uma velocidade impressionante, esmagando, despedaçando, seus músculos inúteis.  

terça-feira, 20 de outubro de 2020

MINICONTO: BOCYDIUM GLOBULARE - THIAGO LUCARINI

Era tarde. Diogo, como doutorando em entomologia, ficou para terminar de catalogar os insetos que chegaram. Sonolento, manuseava um Bocydium Globulare, um inseto brasileiro esquisito, parente da cigarra, que estava mais para um pesadelo ambulante. Diogo pregado do dia exaustivo acabou dormindo sobre a bancada, e sem perceber, espetou-se nos processos espinhosos do Bocydium. Antes de amanhecer, o biólogo acordou com uma tremenda dor de cabeça, levantou-se e bateu as costas no armário, o que era impossível. À meia-luz do ambiente, viu sua imagem refletida nos imensos painéis de vidro das coleções, não pôde gritar. Seus olhos tinham uma coloração amarelada com pupilas horizontais como os das cabras. Sobre sua cabeça havia uma crista bifurcada espinhosa com bolas peludas, na parte de trás dela, uma espécie de ferrão espiculado descia até pouco abaixo dos seus joelhos. Do seu dorso pendiam asas translúcidas e pares extras de patas saíam de debaixo dos braços. Sua boca era agora um longo probóscide. Diogo era uma aberração repugnante. Se pudesse, teria chorado feito um humano.