quarta-feira, 21 de agosto de 2019

POESIA - JAMAIS CHUVA - THIAGO LUCARINI

Cai de mim
Águas que jamais
Foi chuva.
Escorrem pelo meu corpo
E estranhamente não floresço,
O que derramo, desmancha
E nunca frutifica.
E se por acaso nasce flor
É estéril.

POESIA - NOTURNO - THIAGO LUCARINI

Sou noturno
Feito de silêncio e escuridão
E estrelas frias.
Brilho numa abóbada qualquer
Não preciso de céu
Para ser noite, sombra, o outro,
Parte inteira deste todo
Eu noturno.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

POESIA - CAVALO DE BARRO - THIAGO LUCARINI


IMAGEM: Olga Tereshenko

A força do cavaleiro reside
No dorso do seu cavalo,
Enquanto, o poder maior
De Deus é ser Ele mesmo
Sem precisar verbalizar razão
A sua imagem feita de espelho cru.
Desnudado Deus da sua capa dourada
É revelado de barro, o homem.
Homem que é cavalo.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

POESIA - VIDA DE CÃO - THIAGO LUCARINI


Sem orgulho
E de barriga vazia
Eu te procuro
Como um cão
Atrás de restos de comida.
Sou cão que sabe dos riscos
Da vida descartada e vencida
Mas que prefere a disenteria,
A morrer de solidão.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

POESIA - ESTRANHOS INTEIROS - THIAGO LUCARINI


Enxuguei o resto das minhas lágrimas
Com os farrapos do nosso fim.
Não cabe mais a mim, o choro.
Você despejou sobre meus ombros
Medo e solidão, incapacidade,
Mas é tempo de reconstruir alicerces,
Reestruturar outros sentidos, ir em frente.
O que você fez um dia será perdoado,
Agora tempos escolhas não ditas e não
Podemos negar nem mostrar misericórdia,
Seguiremos sóbrios desta decisão
Por caminhos desconhecidos
Daquilo que originou o “nós”.
Vamos ao amanhã cheios em crer
Que logo abandonaremos a chuva,
Que deixaremos de ser meros feridos
Para sermos estranhos inteiros.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

POESIA - REFORMA - THIAGO LUCARINI


O Céu precisa de reparos
Nunca vi tantos santos falhos.
É preciso novas cores
Uma demão de outros amores,
Pois no velho Paraíso já não cabe
Aqueles da vida exilados, que desabe
Desde seus pilares e leve consigo
Seu vasto horror dito bendito.
Após lamento, que venha em fogo
Ressuscitado entendimento
E que este imposto Céu doente
Seja para a mente, esquecimento.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

POESIA - POETAS E ABELHAS - THIAGO LUCARINI


Poetas e abelhas
São a mesma coisa!

Poetas e abelhas captam a essência
Das flores-coisas para frutificarem

O mundo. As abelhas operárias estéticas
Sujam as céleres patas de pólen dourado,

Os poetas sujam as calejadas mãos
De macia tinta ou de fluente carvão.

Poetas e abelhas cruzam campos incertos
E desertos atrás de uma singela flor-coisa.

São pequenos polinizadores de sonhos,
Úteis gigantes em sua imperceptível missão.

Poetas e abelhas usam listras como símbolo,
Uma armadura contra toda a secura dos dias.
                                                                                               
Abelhas têm o ferrão por espada
Os poetas têm o lápis de imagético.

Poetas e abelhas estão constantemente zumbindo
Um hino de socorro na esperança de que alguém os escute.

Poetas e abelhas moldam colmeias-casas
Cheias de mel, mas que poucos se atrevem tocar

Pois podem achar doçura
Pois podem achar dor.

Poetas e abelhas estão entrando em extinção, e ainda, sim,
Teimam deliberadamente em não deixar a achada flor-coisa estéril,

Sem qualquer percepção do olhar alheio corriqueiro
Sempre apressado demais para poder ver o infinito no ínfimo.

Poetas e abelhas apesar da aridez e insensatez
Seguem seu voo de proselitismo frutífero-poético.

Poetas e abelhas
São a mesma coisa!

Poetas e abelhas
São a mesma coisa!