quinta-feira, 28 de setembro de 2017

POESIA - AUTOFAGIA - THIAGO LUCARINI

Prestem atenção!
Ouçam!
Eles gritam
Com suas miúdas,
Mudas, miseráveis,
Maltratadas bocas
Feitas na dureza
Do seio pestilento
Da rua escura.
Prestem atenção!
Ouçam a voz,
O pedido que jamais
Pode ser dito
Por estas bocas
Desconhecidas,
Invisíveis, sem
Morada, misericórdia,
Melhores condições
E que precisam
De autofagia
Para sobreviverem
À linha de um sorriso.

POESIA - LIXO DE MIM - THIAGO LUCARINI

Estive guardando
Coisas demais
Por muito tempo
E toda esta tralha
Vem me soterrando
Ano após ano
Num efeito dominó
Penitente, intermitente.
Quanto mais tento
Livrar-me do desuso
Pernicioso mais seu peso
Empurra-me para baixo
Esmagando numa avalanche
Carmática deste lixo de mim.

POESIA - SEM UNIDADE - THIAGO LUCARINI

Neste sólido
Sem unidade
Que sou
Chover é fácil.
Cada pingo
É cópia de uma ferida
Que não se apaga de fato
Uma vez que
Toda tempestade de mim
É um ato
De glória e horror
Mesclados.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

POESIA - PÁRIA - THIAGO LUCARINI

Estou morrendo, infelizmente, não de fato
Padeço sem inferno. Triste vago.
É tanta tristeza que não me acho
Na sombra ou no traço
Perco-me fácil
Neste labirinto circular,
Irregular da vida assimétrica.
Por que sofro assim?
Intermitente suplício.
Será que sou tão mau assim?
Estes versos naufragados
Na boca e nos dedos
Só podem chegar ao papel
Pois nada posso dizer em voz alta.
Sou um morto em vida
Por isso, invejo os mortos reais
Pelo menos estes são livres
Do fado da carne e do viver em mentiras.
Sou um pária pelos cantos do mundo
Disfarçado de poeta, disfarçado de humano,
Disfarçado em gentilezas poeirentas.
As religiões não conversam comigo
Não tenho amigos nem profetas
Vago solitário, humilhado.
Sem remédio sem solução sem lágrimas.
Observo as flores, as pequenas coisas
Escrevo palavras sem significados
E divago sobre o que poderia ter sido
Neste sonho inumano do eu reflexivo.
Perdoe-me por existir tão sem sentido,
Pois um pária apagado como eu
Não pode fazer muito mais do que isso:
Inexistir existindo no vago nada de hoje.

POESIA - PALAVRAS FIADAS EM CORDÕES - THIAGO LUCARINI

Quero lhes dizer palavras doces feito mel
Para isso, preciso de lápis, uma boa mão,
Tempo para cultivo e branca folha de papel,
Só assim, fluirá de mim rica composição.

Expostas no varal do dia estão minhas poesias
Feitas das tentativas milimétricas de acertos,
E das inspirações de velhas tristezas e novas alegrias.
Componho futuros na esperança de apagar erros

Ou ao menos minimizá-los nas linhas infinitas
Que vão transbordando sentires, dizeres, flores.
Todo um mundo de significados sacros e partidas
Tantas que presenciei e que me deram dores

De saudade da ponta dos pés à cabeça.
Claro, nem tudo é tormento ou lamento,
Pois com afinco misturo tudo isso à beça
Colorindo, dando outros tons ao sofrimento.

Bebo assim novas cores, tirando o amargor
Da ponta da língua e do lápis que corre entre os dedos.
Cubro com doçura e brilho o despercebido, dou sabor
E nova palatabilidade ao intragável dos anseios e medos.

Talvez essa seja a parte mais nobre do cordel,
Destas palavras fiadas em cordões de rimas,
Limpar a vida destes males, da ignorância e do fel,
É amenizar o pavor da lixa cotidiana, aliviar as sinas

Que nos é oferecida diariamente em pratos rasos,
Enquanto a alma mergulha no profundo do ser
Esperando do Paraíso benções para os desesperados
E novo trajeto muito além de conformado padecer.

Cabe a cada um de nós lutarmos com força e coragem
Almejar ser algo a mais que o comum imposto e esperado.
Falhar é fácil, assim como julgar os outros por bobagem
Ou que avançam sem saberem do meu leito deixado

Todas as manhãs para ganhar poucas migalhas
Deste sistema de cretinos que nos ensinam a aceitação
Daquilo que está errado, cortam sem dó nossas asas
Qualquer esperança de voo ou inesperada superação.

Quantos de nós pobres por imposição
Morrem diariamente sem água, comida ou lar,
Um lugar mínimo de dignidade e salvação
Do mar apocalíptico do mau político a manipular

Toda a cadeia de vida da população?
Esquecemos que somos o leme e mais,
Que podemos nos erguer em multidão
E nos sacudir de todos estes malditos ais

Férreas condições sedimentam distópica ideia:
Mais obrigações menos direitos menos festa.
Suor, dor, suplício, regras, solidão e miséria
Sãos as tragédias que nos restam, máquina certa.  

Satisfação pelo pouco dado feito glória,
Mas que não é mais que obrigação do santo ladrão.
Marchamos a pão e circo, engolindo a mesma história
De tempos passados e que perduram e infeccionam a Nação.

Somos escravos por legado, farinha da massa
Para engrossar o caldo dos rendimentos bancários,
E temos por pagamento maldita água suja e rala
Que precariamente mata a sede, somos operários.

Aqui nestas terras tupiniquins impera a corrosão.
A maioria dos homens vive do básico institucionalizado
Para uma minoria de escória, germinada em corrupção
Lambuzar-se em bons regalos sem o ardor do fado.

Oremos à Palavra em busca de sabedoria
Façamos poesia em santa denúncia da opressão
Gritemos! Não sejamos doce e pacata mercadoria
Para sustentar esta roda torta de grata submissão.

Que o povo empoderado tenha o que lhe é de direito
Que o caminho se abra independente das más profecias.
Sejamos, sim, natos festeiros, mas também guerrilheiros de peito

Em busca de uma Pátria onde não brilhe tanta hipocrisia.

POESIA - LIQUIDEZ - THIAGO LUCARINI

Meu corpo
Tem dificuldade
Em se manter
Sólido, teima
Em ser líquido
Sem atrito, quer
Tão somente fluir
Rumo ao inimaginável.
Culpa determinada
Destes pensamentos
Imateriais, leves,
Correnteza de infinito
Que obrigam a matéria
A se comportar em semelho
A sua imparcial liquidez.

POESIA - MAÇÃ PODRE - THIAGO LUCARINI

Das cinzas
Da tragédia e da miséria 
Ergo-me feito 
Verme oportunista,
Gordo me lambuzo
Em busca de asquerosas 
Asas talhadas na lama 
Da imoralidade coaduna
A escuridão de mim.
Meu amor
É um pedaço 
De maçã podre
Jogado à sarjeta.
Fomos nos apodrecendo
Cada qual, favorecendo
O pior lado do outro.
Aqui não há flores
Somente enterros
Para saciar a fome de carne 
No final da sua evolução.