sábado, 23 de abril de 2016

POESIA - CABIDE DE CARNE - THIAGO LUCARINI



O morto
Descido à cova
Livre do rigor mortis
Despe-se de sua carne
Expondo seus cabides
De ossos alvos, que tanto
Deram sustentação
A formação de quem
Este era.
O morto
Apodrecendo
Retira em definitivo
A roupa velha de toda a vida.
O morto
Enterrado
É um ovo choco
Pelado
Expondo a face
Da casca interna
Em sua casa eterna.

POESIA - METÁFORÂNEA - THIAGO LUCARINI



Das mãos passou
Por entre
Meus finos dedos

Caiu
No diamantino chão
E espedaçou-se.

A integridade tornou-se
Cacos espalhados,
Cheios de pontas agudas

Para furar e sangrar
Meus sensíveis pés
Insipientes e descalços.

O Alto cometeu
O descuidado pecado
E o Baixo pagou a dor.

POESIA - PARQUE DE DIVERSÃO - THIAGO LUCARINI



Fizeste do meu amor
Um parque de diversão.
Usou-me de todas as formas
Você teve altos e baixos
Feito assento de roda-gigante
Descreveu loopings vertiginosos
De emoções como montanha-russa.
Fez do meu coração carinho de bate-bate
Distorceu minhas palavras feito a casa dos espelhos
Tornou meus dias um camicase frenético.
Não houve para nós a tranquilidade do trenzinho
O romantismo do carrossel ou o saudável
Frio na barriga de um inofensivo escorrega.
Depois de tanto abusar-me
Algodão-doce amargou
Atirou-me a sarjeta, pipoca para pombos,
Abandonou-me na casa dos horrores
Perpetuamente. Trágica e desgraçada
Fora minha vida ao teu lado
Fui palhaço num circo premeditado
Fantoche sem diversão própria. 

POESIA - BALÉ DAS COISAS - THIAGO LUCARINI



O balé das nuvens
É lento, pesado e estacionário.

O balé das gotas de chuva
É rápido, tropical e vivificante.

O balé das chamas
É sedutor e passageiro.

O balé das flores
É perfumado e de cicio.

O balé dos pássaros
É emplumado e de pipio.

O balé dos cardumes de peixes
É migratório. Imbricado nas águas.

O balé da terra
É rotacional. Um giro no próprio eixo.

O balé da lua
É influente e gravitacional.

E o balé da humanidade
É de hipóteses estéticas

Sedimentadas na leveza
Ou crueldade do não dançar.

O balé bailado da bailarina
É a essência de uma existência.

POESIA - MUTÁVEL MOLDURA - THIAGO LUCARINI



FOTO: Thiago Lucarini
 
A poesia é uma pintura
de palavras descoloridas
em mutável moldura
a colorir-se no quadro
do coração de cada um.