terça-feira, 22 de setembro de 2015

SONETO - DILÚVIO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Olhe para o horizonte e veja
O manto de água que vem caindo
Dando ao mundo livramento da sede labirinto
Talvez, iludidamente como a chuva eu seja.

Só que caio sempre do mesmo ponto
Sem dissolução quando estou em dilúvio
Despenco inteiro do céu formando deflúvio
Não me faço em poças, duro chego feito confronto.

Quando meu dilúvio encontra a tempestade natural
Nos fundimos, conjunção de híbridos e atemporal
Pois chovemos em castigos ou milagres

Em qualquer estação, além de 40 dias e 40 noites, além de vãs ações
Somos dilúvio mesmo sem água, antígenos raros as precipitações

Fazemos a ligação entre Céu e terra, homens e nuvens. 

POESIA - CÂNTICO - THIAGO LUCARINI

Primeiro existiu o silêncio
Depois veio o Criador
E sua voz:
“E fez-se...”
Nasceu aí o primeiro canto
De toda a criação, desde então
As águas sussurram
O fogo crepita
As folhas ciciam
Os animais têm seu falar próprio
E os homens têm seu hino
Um cântico novo a cada dia
Cântico do nascer ao morrer
Voltando ao silêncio universal

Só no derradeiro fechar dos olhos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

POESIA - TAUTOLOGIA - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Quebrando meu padrão,
Raciocínio lógico
Proposições variáveis
Conectivos respectivos
Entre sinapses e impulsos.
Que sorte eu teria se tudo
Fosse sempre verdadeiro
Suficiente e necessário
Uma tautologia, tatuagem
De honestidade de fala
Apologia matemática
Livre de contradição e
Podendo, ás vezes, chegar
Ao meio-termo de contingências.
Esquecendo o labirinto

Dos paradoxos sem saída.  

POESIA - POETA MORTO - THIAGO LUCARINI

Em vida só tive poesia
Por isso quando eu for um morto
Em vez de terra fofa e fresca
Dai-me apenas folhas de papel
Certamente não escreverei nada
Com minhas novas mãos frias
Mas soltarei tinta de derradeira instância
Farei de todo o corpo inerte
Último carvão a riscar o virginal papel

Dado em enceramento de um ato.

POESIA - DISSOLUÇÃO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Basta repetir, repetir,
de novo e de novo,
sem parar, calejar
até não sentir mais
até dissolver
a acidez a dor
das palavras ditas
pela boca azeda.
Ou dissolver
a si em lágrimas
alcalinas e frias.

POESIA - ESPINHOS FLORIDOS - THIAGO LUCARINI

Sou destes que sofrem
Na mudez apócrifa
Que ó falam do problema
Depois de sanado e olhe lá.
Sigo uma falha marcha
Redigida em silêncio
Configuro meus espinhos
Em palavras, pois assim
Doem menos quando passados,
E creio no tempo em que
Estes espinhos florescerão

Afinal, sou um otário otimista.

POESIA - TIVE - THIAGO LUCARINI

Tive o sorriso da lua
Tive o brilho do sol
Tive o encanto das estrelas
Tive o sono da noite
Tive o abraço dos sonhos
Tive a ocultação do tempo
Tive o tempo meu
Tive as graças do amor.
Tive tudo, tudo mesmo
Gastei o que tive, sem troco

Até não ter mais nada.