Não reconheceram nenhuma
construção ou presença de humanos. Idê com 12 anos e Arlete com 3, tinham ido
dormir na noite passada, cada uma em sua cama, e simplesmente, haviam acordado numa
ilha deserta. As irmãs estavam à beira-mar numa região de relva baixa, e pouco
a frente, uma densa floresta se erguia recostada a montanhas escarpadas. Andaram
pela orla até perto do meio-dia, escutaram o sibilar de cobras, tudo as
assustavam, não acharam água potável, o sol as castigava, suas barrigas
roncavam. Idê viu lágrimas silenciosas descer pelo rosto da irmã. Um estrondo. Levantaram-se
e olharam rumo ao barulho. Poderia ser ajuda. Ilusão. Viram árvores caírem
dentro da selva como se fosse gravetos, pássaros voaram em debandada, a terra
tremia. Algo grande vinha de encontro a elas. Arlete e Idê se abraçaram e
fecharam os olhos.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
MINICONTO: LAÇOS - THIAGO LUCARINI
domingo, 25 de outubro de 2020
MINICONTO: CHEGUEI TÔ PREPARA PRA ATACAR - THIAGO LUCARINI
Rosy MARA era uma drag
queen famosa. Na boate lotada, a música dela tocou. Lacradora, de cara, abriu um espacate. Seus
fãs vibraram eufóricos. Estar no palco era sua vida, sua arte, fora dele os
dias eram mais cinzas, mas não infelizes. Já no camarim, a drag despiu-se do
sacrifício e do glamour. Saiu pela porta dos fundos. Rosy estava com fome e
numa noite em que preferia evitar a multidão. Desmontada, Rosymar ainda era bem
feminino. Passiva, andava pelas ruas escuras de salto alto e com uma bolsa
cheia de acué. Não tardou a ouvir:
“Aonde vai, boneca?” Rosy apertou o passo, no entanto, três ocós a seguiram e
encurralaram. “Pra que tanta pressa?” Tomaram-lhe e bolsa e um deles socou-a na
boca. Sangue. “Do que está rindo, aberração.” Rosy gargalhava, pois sentiu a velha
energia fluindo pelo seu corpo, transformando-a num poderoso lobisomem em nada
delicado. Rosy amava fazer uma revelação. Era noite de caça e nada era mais
apetitoso do que um bando de babacas com masculinidade frágil para o jantar.
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
MINICONTO: A TOCA - THIAGO LUCARINI
A pequena aranha peluda em
sua teia permanecia há dias no canto do teto. Gleice Kelly deitada na cama para
a sesta encarava o aracnídeo. Tinha medo, porém faltava coragem para retirá-la
dali. Quando acordou, percebeu que a aranha não estava mais no seu lugar
habitual. Talvez, enfim, tivesse ido embora, procurar. Gleice Kelly sentiu uma
coceira no ouvido direito, foi ao banheiro e pegou um cotonete, ao posicioná-lo
na orelha, viu patinhas saírem de dentro do seu ouvido. Ficou branca. Um
calafrio desceu por sua espinha. Tinha lido relatos de besouros, moscas e
baratas entrarem naquele orifício, mas aranha, não. Com as mãos trêmulas pegou
uma pinça. Puxaria a aranha nem que fosse aos pedaços, podia senti-la
deslizando pelo seu canal auditivo, raspando, arranhando. Gleice Kelly sem
pestanejar empurrou a pinça, mas paralisou antes de concretizar o ato, pois
dentro de sua cabeça a aranha sussurrou: “Não ouse!”
terça-feira, 20 de outubro de 2020
MINICONTO: BOCYDIUM GLOBULARE - THIAGO LUCARINI
Era tarde. Diogo,
como doutorando em entomologia, ficou para terminar de catalogar os insetos que
chegaram. Sonolento, manuseava um Bocydium Globulare, um inseto brasileiro esquisito, parente da
cigarra, que estava mais para um pesadelo ambulante. Diogo pregado do dia
exaustivo acabou dormindo sobre a bancada, e sem perceber, espetou-se nos
processos espinhosos do Bocydium. Antes de amanhecer, o biólogo acordou
com uma tremenda dor de cabeça, levantou-se e bateu as costas no armário, o que
era impossível. À meia-luz do ambiente, viu sua imagem refletida nos imensos
painéis de vidro das coleções, não pôde gritar. Seus olhos tinham uma coloração
amarelada com pupilas horizontais como os das cabras. Sobre sua cabeça havia uma
crista bifurcada espinhosa com bolas peludas, na parte de trás dela, uma
espécie de ferrão espiculado descia até pouco abaixo dos seus joelhos. Do seu
dorso pendiam asas translúcidas e pares extras de patas saíam de debaixo dos
braços. Sua boca era agora um longo probóscide. Diogo era uma aberração
repugnante. Se pudesse, teria chorado feito um humano.
domingo, 18 de outubro de 2020
MINICONTO: COISA DA SUA CABEÇA - THIAGO LUCARINI
Era uma mulher
vaidosa, gostava de cuidar do seu cabelo grisalho e cacheado, o espelho, a cada
dia, tornava-se mais seu amigo. Graciete, ao acordar, naquele dia, sentiu algo
diferente e viscoso sobre seu couro cabeludo. Levou a mão para coçar, mas
recuou com dor, pois sua mão foi queimada. Levantou às pressas e indo até o
espelho do banheiro. Desconcertada, viu que no lugar dos cachos vistosos, agora
estavam corós rechonchudos, peludos e listrados presos a sua pele. Eles se
esticavam e ondulavam, caminhavam até onde podiam, com suas patinhas pegajosas.
Desesperada, Graciete pegou uma tesoura e cortou um dos bichos, a dor foi tanto
dele quanto dela. Seu marido bateu à porta do banheiro. A mulher não ousou
abrir, seu nojo e asco, misturados ao pavor a paralisou. Em meio às lágrimas,
uma forte dor floresceu no seu peito. Graciete notou que os corós farfalhavam e
a encaravam com assombro, ela fechou os olhos e entregou-se a liberdade
vindoura.
sábado, 17 de outubro de 2020
MINICONTO: DIA DE CHUVA - THIAGO LUCARINI
No alto dos seus oito
anos, Chirley adquiriu um medo mortal do período de chuva. Dias atrás, durante
um evento líquido no meio da noite, seres brilhantes, com corpos anormais em ziguezague
e cabeças retangulares, surgiram para ela. Anunciaram que não a machucariam, muito,
pois precisavam da sua chuva particular, por isso, logo voltariam.
Chirley sentiu a
mudança no vento no final de tarde, seus olhos marejaram. Seus pais afirmaram
que ela estava crescidinha demais para inventar tais bobeiras. Já deitada para
dormir, a chuva assolava sua janela. Um trovão ribombou, ela suava de nervosa,
um raio foi seguido por um clarão que trouxe ao seu quarto os seres da
tempestade. Havia dois deles, sem delongas, eles se aproximaram de Chirley, um
de cada lado da cama. Instintivamente, ela cobriu a cabeça, porém ainda podia
vê-los através do cobertor devido à luminosidade intensa emitida pelas
criaturas. Os seres, sem anúncio, a tocaram. Chirley gritou em desespero, eles
a queimavam profundamente, fazendo-a chover.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
MINICONTO: BONECA-DE-MILHO - THIAGO LUCARINI
Aquele seria seu
último São João. Lamentou, amargamente, ter feito a brincadeira idiota de
invocar a Boneca-de-milho, uma entidade sádica e cruel, que caçava suas
vítimas, até o último grito. Sua irmã, Elis a alertou do perigo. No meio da
festa, Eloanne esbarrava num e noutro, reconheceu rostos familiares e outros tantos
estranhos. E pior, viu a Boneca-de-milho, ela tinha uma aparência infantil e
carunchosa, porém era um ser infernal e ancião. Usava um vestido feito da palha
de milho. Não possuía um dos olhos, no lugar havia uma rodela de espiga de
milho. Eloanne deixou sua pamonha cair ao vê-la e começou a correr entre a
multidão, que por vezes, reclamava. Sem fôlego e desesperada, parou por um
instante, e odiou ser sedentária. Em meio àquelas pessoas, sentiu duas mãos
frias agarrar suas pernas. Um portal escuro cobria o chão a sua volta e dele
emergia parte da Boneca-de-milho. Mesmo cercada por uma multidão, ninguém
escutou os gritos de Eloanne ao ser arrastada para o submundo. Elis, longe
dali, chorou sem saber o porquê.
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
MINICONTO: QUEBRA-CABEÇA - THIAGO LUCARINI
Leonardo sentiu todo
seu corpo enrijecer. Um punhado de seu cabelo foi erguido. Perplexo, Léo olhou
no espelho da sala de jantar. A personagem mais cruel que sua escrita já criou,
estava bem ao seu lado. Mayanna ou a Quebra-cabeça lhe sorriu, com sua aura
densa e maligna de bruxa. Os cabelos do escritor foram puxados com mais
violência por May. Ele não gritou. Era o que ela queria.
Descontente, a bruxa
bateu sua cabeça com na mesa. A comida quente no prato recém posto entrou em seus
olhos, queimando. Concomitante, o utensílio se quebrou, cortando sua testa. May
o puxou de volta. Não ousou gritar.
Sua cabeça foi
arremessada de novo, dessa vez sobre as lascas de porcelana. Os cacos retalharam
seu rosto como se tivessem fome. Seu nariz balançou por um fio de pele. Só
então, Leonardo gritou. Era mais fácil dar o que May ansiava. Afinal, ele a
conhecia melhor do que ninguém.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
MINICONTO: PARANOIA - THIAGO LUCARINI
Júlia encarou-se no
espelho, apalpando a barriga como tantas outras vezes.
— Amor, não há nada
dentro de você.
Independente do que
Agenor dissesse ou os médicos e seus exames falhos, Júlia sabia que tinha algo
dentro dela, crescendo, expandindo-se. Não era um bebê. Era algo mais,
inexplicável, fora da realidade.
Tateou sua carne
morna um pouco mais.
Agenor a observava,
descrente.
— Eu não estou louca
— retrucou.
Já à mesa, Júlia
tomava seu café em silêncio, Agenor mexia no celular. De repente, ela sentiu
aquela coisa andar por baixo da sua pele. Sem pensar, pegou uma faca de serra
que havia deixado próxima.
— Te peguei,
desgraçado. — Berrou Júlia, enfiando a faca na própria barriga.
Agenor correu para
socorrê-la e em meio ao sangue, ele viu parte de algo não humano que Júlia
acertou.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
MINICONTO: ACESSO NEGADO - THIAGO LUCARINI
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
MINICONTO: MÃO AMIGA - THIAGO LUCARINI
Deixou o copo cheio cair e se espatifar. Gritou por socorro, mas lembrou-se que estava sozinha. Uma mão cadavérica, arroxeada, com pedaços faltosos de pele e carne, saía de dentro do bolo na geladeira e segurava o braço de Taize com firmeza. Ela se sacudia, tentando desvencilhar-se, porém a mão sobrenatural era muito mais forte. Mais cedo, naquele dia, recebeu de Letícia, aquele bolo. Talvez, Leti, não fosse tão sua amiga assim.
Aflita, Taize deu um solavanco para trás, escorregou num caco de vidro e tombou, batendo a cabeça na borda da pia. Notou, mesmo zonza, que estava livre, porém cheia de marcas. A mão podre devagarzinho fechou a porta da geladeira. Taize em pânico e receosa, só pensava em como a tiraria de lá sem ser arrastada para o seu mundo frio e sombrio.
MINICONTO: BARBA, CABELO E BIGODE
domingo, 11 de outubro de 2020
MINICONTO: O LAMBE-PÉS - THIAGO LUCARINI
Espantado, eu não
conseguia me mexer. Algo estava aos pés da minha cama. Na penumbra da
madrugada, eu via sua cabeça desproporcional, emoldurada por olhos vermelhos
assustadores, presa a um corpo diminuto.
Aquilo, seja lá o que
fosse, ante minha imobilidade, descobriu meus pés com nítido prazer. Abriu sua
bocarra com dentes finos e pontiagudos, e dela deslizou uma língua comprida com
protuberâncias rugosas. Saliva escorreu sobre meus pés. Eu tremia, e diante meu
desespero, a criatura abocanhou meus dois pés de uma vez só. Lambendo-os,
mordiscando-os. Até que eu senti uma dor insuportável. Sangue esguichou nas
paredes. O monstro mastigava meus pés com satisfação enquanto eu gritava,
perplexo.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
NOVO LIVRO: O PANTEÃO DOS PESADELOS - THIAGO LUCARINI
Depois de praticamente oito anos sem publicar um livro solo ou que não seja apenas poesia, venho neste post pôr a luz o anúncio do meu novo livro: O PANTEÃO DOS PESADELOS. Mal posso esperar para que conheçam estas histórias assustadoras.
O Panteão dos Pesadelos é uma coletânea composta por 13 contos curtos de horror, que trazem em si uma releitura bizarra dos signos do zodíaco. Os pesadelos descritos ou têm características exacerbadas dos signos ou apenas se utilizam de traços de suas representações simbólicas ou imagéticas. Suas reinterpretações no zodíaco infernal Lucariano são:
O Homem dos Dentes de Vidro / Áries
O Glutão / Touro
O Poeta / Gêmeos
Barriga de Vermes / Câncer
O Músico / Leão
O Construtor / Virgem
O Agricultor / Libra
João-de-Milho / Escorpião
O Quebrado / Sagitário
O Agiota / Capricórnio
Oráculo / Aquário
Karamu / Peixes
E de
bônus:
A Dentista / Ofiúco ou Serpentário




























