Fazia anos que eu não via
qualquer nesga de sol. As correntes que um dia me prenderam, hoje, me
libertaram. Enquanto aqueço meu corpo, adaptando-me novamente à vida, um
desgraçado esfria no porão.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
MINICONTO: CATIVEIRO - THIAGO LUCARINI
sábado, 12 de dezembro de 2020
MINICONTO: VELA AOS ANJOS - THIAGO LUCARINI
Eu andava pelas cinzas do
que restou do barracão. Tijolos enegrecidos pelo fogo pareciam olhos atentos a
me observar, mas não podiam me julgar, não há condenação maior do que aquela
dentro de mim. Fumaça sobe do rescaldo, eu sinto frio apesar do calor residual.
Os moveis são esqueletos de toda uma vida deposta, a casa agora é um caixão
selado em ruínas, altar do medo infantil do escuro. Meus pés vacilam ante toda
a cena. Não tenho lágrimas suficientes para apagar a memória. Eu não devia ter
deixado a vela acessa junto aos anjos levados de mim.
MINICONTO: DESPEDIDA - THIAGO LUCARINI
Seu marido chegou sem ela
percebê-lo e a beijou afetuosamente. Sentou-se no sofá e pediu para que Suzana
sentasse ao seu lado. Não era incomum, pois ele sempre foi muito amoroso. Na
televisão passava o jornal local. Logo ela fez menção de se levantar, mas Milo
segurou sua mão e na tevê entrou um link ao vivo, noticiando um grave acidente
na rodovia que havia acabado de ocorrer, tinham identificado um dos motoristas
e o jornalista disse o nome completo de Milo. Suzana trêmula se virou para seu
marido, que com olhos marejados e um sorriso, desaparecia.
MINICONTO: BANQUETE - THIAGO LUCARINI
Certamente é a refeição
mais gostosa que terá a chance de provar. É a mais cara também. Para estar no
banquete exige-se vestimenta adequada, requinte e elegância. Pela raridade do prato
eventos como esse acontecem de uma a no máximo duas vezes por ano. Há anos de
total escassez também. Observamos todos os preparativos, pois tudo deve ser
feito na primeira hora. Estamos perto, apesar de já passar das quatro da manhã.
Todos os presentes estão eufóricos para experimentar aquela iguaria. Ouvimos um
grito. Salivamos. Finalmente a bolsa rompeu.
MINICONTO: O BATEDOR DE PORTAS - THIAGO LUCARINI
Não é só o vento, dizem
isso apenas para nos acalmar ou negar a situação real. Eu também desacreditava,
mas tudo mudou. Eu fui banhar e deixei a porta encostada, não demorou muito e
ela começou a bater repetidamente, continuei meu banho ao som das batidas. Já
enrolado na toalha peguei na maçaneta e puxei a porta entreaberta para abri-la
totalmente, porém uma força contrária à minha travou a porta, coloquei toda a
minha energia, mas não consegui movê-la. Coloquei a cabeça pela fresta e vi um
ser encarquilhado segurando a maçaneta do outro lado. Ele ria sem me perceber,
eu gelei. A seguir a porta se escancarou, rangendo no vazio.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
MINICONTO: ÁRVORE - THIAGO LUCARINI
De frente a janela do meu
quarto havia uma árvore, uma velha mangueira. Suas folhas ciciavam o tempo todo
me atormentando. Eu a detestava e o sentimento era mútuo. Durante as chuvas, a
árvore sempre quebrava partes do telhado, em noites de ventania, seus galhos
raspavam o vidro da janela, espantando meu sono. Naquela noite o ciciar
infernal me despertou outra vez, encarei a maldita, e pela primeira vez, eu vi
olhos não naturais me encararem de volta. Furioso, fui à garagem, peguei um
machado e comecei a cortar o seu tronco. Já amanhecendo, a árvore tombou,
caindo sobre minhas pernas, decepando-as. Seiva e sangue, carne e madeira se
misturavam na alva, ambos morrendo.
MINICONTO: TROTE - THIAGO LUCARINI
Eu não devia ter passado o
trote. Liguei só para zoar, fazer uma brincadeirinha de leve. Achei que a família
apreciaria um pouco um pouco de humor num momento tão difícil. Mas assim que
desliguei o telefone, aconteceu. Ao meu lado surgiu uma criança com marcas de
estrangulamento e com o torso parcialmente carbonizado. De imediato, reconheci
a vítima do caso e entrei em pânico. O fantasma me persegue há dias. A polícia
e a família ainda procuram, na dúvida e esperança, a criança ou um corpo,
enquanto eu carrego a certeza e o assombro frio da morte.
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
MINICONTOS: DEVORADOR DE ANJOS E BRINCADEIRA DE CRIANÇA - THIAGO LUCARINI
Eu sou médica plantonista
de uma UTI neonatal, não revelarei meu nome, mas farei um alerta, peço que
acreditem, pois é real. Nas madrugadas dos hospitais, entre sons de
respiradores e monitores cardíacos ronda uma criatura chamada, Devorador de
Anjos, trata-se de uma massa escura e disforme de pura maldade. Ela busca bebês
que por algum motivo foram amaldiçoados por pais cruéis. A criatura,
simplesmente, paira sobre a incubadora ou berço e a criança chora por um
instante, e depois não chora nunca mais. Eu vi, juro que vi. Amem seus filhos
desde o ventre e não digam palavras avessas, pois essa é a única forma de
salvar os anjos do Devorador.
BRINCADEIRA DE CRIANÇA
Ficou ao lado da porta,
escutando sua filha brincar com suas bonecas. Ela dizia: “Como você tá linda.
Como você trabalha. Não precisa ficar emburrada. Tá na hora de fazer o dever de
casa.” A mãe riu baixinho dos comentários inocentes de sua filha e foi quando
ouviu. “Não farei a porra de tarefa nenhuma, piralha.” A mãe sobressaltada
entrou de supetão no quarto, mas lá só estavam as bonecas e sua filha.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
MINICONTO: ADEUS - THIAGO LUCARINI
Augusto veio até minha mesa
logo após o intervalo. “Professora, minha mãe pediu para te entregar minha
agenda depois do recreio.” A professora pegou a agenda e leu o recado da mãe da
criança. Suas pernas amoleceram instantaneamente, sentiu sua pressão cair. No caderno
dizia: “Hoje, eu não buscarei Augusto, pois assim que ler isso, eu já não mais
pertencerei a este mundo. Cuide dele.”
MINICONTO: VISLUMBRE - THIAGO LUCARINI
sábado, 14 de novembro de 2020
MINICONTOS: BOA MÃE E LAMA - THIAGO LUCARINI
Minha filha, dissimulada, chorava ao lado do meu caixão. Ela conseguiu embotar minha vida. Mas, agora, depois de morta, não seria tão fácil se livrar de mim, pois uma boa mãe jamais abandona um filho, mesmo que cruel e ingrato.
***
LAMA
Pegou sua lanterna e foi em
direção ao curral. As vacas estavam agitadas. Tinha chovido mais cedo e havia
lama por toda parte. Chegou ao curral, os animais assustados se amontoavam num
canto, mirrou a lanterna na direção oposta, com o susto que levou, deixou-a
cair. Devido ao facho de luz tombado, viu que a lama, feito uma entidade,
engolia metade de uma vaca. O homem caído percebeu que a lama a sua volta,
envolvia o seu corpo, imobilizando-o em seu estômago voraz e insaciável.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
MINICONTO: BANHEIRO PÚBLICO - THIAGO LUCARINI
Estava super apertado, sua
bexiga parecia um balão perto de explodir, entrou no banheiro público da rodoviária,
o lugar fedia, tinha o cheiro acre e salgado de urina acumulada. Entrou no cubículo
do vaso sanitário e começou a se aliviar, seu xixi se misturava ao de outros. O
misto de urina de tantos tinha uma cor dourada acentuada. Enquanto se aliviava,
encarou o vaso cheio de respingos amarelados, lembrou-se dos refrescos
artificiais da sua infância. Terminou de mijar e sucedeu que uma vontade incontrolável
de experimentar aquela mistura nojenta e espumante o assombrou. Tentado, curvou-se e encostou o dedo na superfície
das várias urinas, tomado por um frenesi inexplicável, levou o dedo à boca. Nunca pensou que sairia do banheiro muito mais
cheio do que entrou.
sábado, 7 de novembro de 2020
MINICONTOS DE HORROR - THIAGO LUCARINI
Quando clicou no
ícone do aplicativo a tela do celular se abriu, mas não da forma convencional.
Abriu feito um buraco interdimensional que engoliu e decepou o seu dedo em
segundos. Logo, o celular voltou ao normal, porém sua vida de clicar havia
acabado.
Sua mão escorregou
para fora da cama. Sentiu as lambidas úmidas e quentes de sua cachorrinha. Toda
arrepiada lembrou-se que havia três meses que sua cadela tinha morrido.
As cebolas, as
cenouras, as batatas, tudo cozinhava no molho grosso. Não entendia o porquê
havia demorado tanto para realizar aquele desejo. A carne perfumosa estava
tenra e suculenta. Fez seu prato e sentiu-se à mesa. Salivava. O torniquete em
sua perna esquerda vazava sangue, enfraquecendo-o, não se importou, pois seu pé
cozido parecia apetitoso demais.
***
Ele acordava todas as
manhãs com sua esposa acariciando sua barba. Um hábito que ela não perdeu mesmo
depois de ter sido levada pela doença.
Mãos nervosas a
acariciavam no meio da madrugada. Seus olhos marejavam limpos de qualquer sono.
Queria muito que fosse um monstro hipotético, preferia até o demônio religioso.
Assim, não odiaria alguém tão próximo.
Não entendia o porquê seu
bebê continuava a chorar mesmo depois de tê-lo colocado para dormir no fundo da
banheira cheia de água.
Depois de um tempo sentada
no sofá, sentiu uma mão fria tocar sua pele. Teria que esconder melhor o corpo
do seu ex.
Conversava com sua amiga
pelo Whatsapp trocando mensagens de voz. Reconheceu que em um dos áudios não
era sua amiga quem falava. Uma voz espectral e ruidosa anunciava: “Ela morre
amanhã.”
Ignorou o aviso da amiga. Mas
quando o carro do seu pai travou num engavetamento e viu pelo espelho
retrovisor uma carreta vindo desgovernada, só fechou os olhos.
sábado, 31 de outubro de 2020
MINICONTO: MENTE CRIATIVA - THIAGO LUCARINI
Thiago era um desses
escritores fracassados antes mesmo de começar, mas que realmente fazia das
palavras seu mundo. Por meio de suas histórias ridículas brincava de matar seus
amigos e amores passados. Thiago tinha uma mente cheia de pensamentos
intrusivos, dos quais, aproveitava-se nas suas criações. Porém, tudo mudou no
dia das bruxas daquele ano. As palavras que tanto amou, passou a odiar.
Amaldiçoado pelo Verbo, agora, qualquer ideia torta que tivesse tornava-se
realidade. Descobriu isso do pior jeito. Dentro de um ônibus, voltando para
casa, enquanto uma criança chorava afoita, pensou: “Bem que podia morrer.” O
bebê parou de chorar e a mãe gritou, desesperada. Thiago teve provas, o
suficiente, após, para descartar as chances de ser coincidência. Antes o que
era glória virou um inferno. Thiago tinha que controlar seus pensamentos o
tempo todo, de forma deliberada. Trancou-se em casa, a solidão era salvação,
uma vez que sem matar outros, seus pensamentos venenosos o apodreciam,
literalmente.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
MINICONTO: PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO - THIAGO LUCARINI
Era dia de eleição no
inferno. Gustavo vacilou diante da urna. Teria que colocar um dedo na boca de
uma sanguessuga vampiresca, deixá-la beber uma gota do seu plasma e induzir sua
vontade através do pensamento. Um painel contabilizava os votos. Gustavo tinha
que escolher muito bem, o Eleito, ou ele perderia os poucos direitos que
exercia e padeceria nos abusos punitivos. Deveria selecionar o menos pior
dentre os infernais. Tentar acreditar numa esperança inexistente. Independente
de quem vencesse, todos estariam suspensos de castigos por um ano. Mas como
seria pelo próximo milênio? A urna viva, sedenta o olhava impaciente. Gustavo
era um fiel na crença de que na dor não há glória, a urna que esperasse. Sua
eternidade estava em jogo, por mais que todos os candidatos ora ou outra se
repetissem. A escolha não era real e estava ciente daquilo que viria. O voto
era uma esperança onírica e leviana, ou seja, só mais uma punição disfarçada de
prêmio. Gustavo colocou o dedo na boca da sanguessuga demoníaca. Ele era a
última alma a votar no status quo do submundo.
MINICONTO: PANQUECAS NA MADRUGADA - THIAGO LUCARINI
Nani e Kadu levantaram
assustados como choramingo de Pantera, a pit bull de estimação. Instantes antes
um forte clarão iluminou toda a região. Kadu foi o primeiro a notar Pantera
caída no canto da área com um furo chamuscado no peito. Não havia sangue. Nani
levou a mão para consolar a cadela que parou de respirar antes do toque da
dona. O casal atônito e confuso olhava a cena. Sem chance de se recuperarem do
choque, viram o corpo de Pantera começar a ondular com vários calombos. Kadu
puxou a esposa de perto do animal, que se avolumava e crescia a proporções
inimagináveis. Seu corpo expandiu como espuma, quebrando o telhado. Pantera
atingiu um corpanzil com mais de 50 metros de altura, permanecendo bípede.
Reavivada, latiu provocando um estrondo ensurdecedor, uma imensa bola de baba
caiu sobre o casal, imobilizando-os. Pantera achando equilíbrio pisoteou a
casa, o carro e sem perceber também esmagou seus donos indefesos diante do
gigantesco desastre.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
MINICONTO: CORTADOR DE UNHAS - THIAGO LUCARINI
Sua unha encravada e
inflamada, latejava, deixando Leandro naquele estado semiconsciente do sono.
Achou estar delirando quando começou a ouvir o tec-tec de um cortador de
unha. Pensou ser só o anseio pelo alívio. Simultaneamente, o peso de algo
afundou seu colchão, Leandro abriu os olhos e o seu choque foi tamanho que o
imobilizou. Ele estava entre as patas de uma besta, que se parecia um cão, mas
que no lugar da boca, possuía as lâminas angulosas e curvas de um cortador de
unha, da base da sua nuca saía uma alavanca metálica que sozinha, descia e
subia, provocando o tec-tec. O monstro farejou o ar até a unha encravada
cheia de pus na mão direita de Leandro e colocou o dedão entre suas lâminas e
com um tec, decepou o dedo, saboreando-o, enquanto menino agonizava aos
berros, paralisado pela opressão da besta infernal. Logo o Cortador passou para
o próximo dedo, e seria assim, até o último.
MINICONTO: LAÇOS - THIAGO LUCARINI
Não reconheceram nenhuma
construção ou presença de humanos. Idê com 12 anos e Arlete com 3, tinham ido
dormir na noite passada, cada uma em sua cama, e simplesmente, haviam acordado numa
ilha deserta. As irmãs estavam à beira-mar numa região de relva baixa, e pouco
a frente, uma densa floresta se erguia recostada a montanhas escarpadas. Andaram
pela orla até perto do meio-dia, escutaram o sibilar de cobras, tudo as
assustavam, não acharam água potável, o sol as castigava, suas barrigas
roncavam. Idê viu lágrimas silenciosas descer pelo rosto da irmã. Um estrondo. Levantaram-se
e olharam rumo ao barulho. Poderia ser ajuda. Ilusão. Viram árvores caírem
dentro da selva como se fosse gravetos, pássaros voaram em debandada, a terra
tremia. Algo grande vinha de encontro a elas. Arlete e Idê se abraçaram e
fecharam os olhos.
MINICONTO: DEPOIS DA COLHEITA DE COGUMELOS - THIAGO LUCARINI
Deise e Daniela não sabiam
o que era andar nas ruas sem proteção, aquela parafernália de astronautas
cedida pelo governo. Viam as notícias sobre o ‘derretimento’ e que só dentro de
casa era seguro, graças ao equipamento de purificação do ar. A guerra nuclear
alterou para sempre a atmosfera terrestre, tornando-a corrosiva para os humanos.
Porém, para as gêmeas de oito anos, a linha entre fantasia e realidade era bem
tênue. Daniela convenceu Deise, de que tudo aquilo não passava de superproteção
dos pais, pois nunca tinha visto, ao vivo, alguém derreter. Daniela era uma
negacionista dos fatos. Infiltrada com as ideias da irmã, Deise cedeu ao plano.
Ao final daquela tarde, foram para o jardim, ambas saíram de casa com os trajes
de segurança. Daniela encarou a irmã: “Pronta?” Deise fez um gesto de positivo
e levantou o capacete, automaticamente, a garota começou a derreter aos gritos,
seu corpo virou uma poça de pus aos pés de Daniela que não se abalou, pois ela
podia até ser contrária, mas não era burra o bastante para se expor primeiro.
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
MINICONTO: ANJO DE BOA VONTADE - THIAGO LUCARINI
Copiosas lágrimas desciam
pelo rosto de camafeu de Juliane. De joelhos, ela orava por absolvição, como
uma fiel ansiava estar livre dos seus pecados, de toda a dor que causou,
suplicava a Deus com fervor por uma chance de se provar justa mais uma vez.
Juliane elevou sua voz celeste em comoção aos Céus, seu coração seguia o ritmo
de sua prece melodiosa. Todo o seu ser clamava por redenção. Esperava um sinal,
boa vontade suprema. Não erraria outra vez, não poderia, não queria passar por
aquilo de novo, a eternidade era traiçoeira e escorregadia. Não sabia se o seu
arrependimento seria o suficiente depois de tudo. Juliane estava convicta da
bondade do seu Senhor, mas Ele não era tolo. A trombeta do tribunal soou. Veredicto:
culpada. Juliane perdeu suas asas e graça e foi arremessada contra a face da
Terra, quebrando todas as suas mentiras. Depois de ser extirpada do seio da
glória, caminhou por aquele antro de perdidos e impuros, aonde, tantas vezes,
veio para exterminar humanos antes mesmo de esses saírem do ventre.



















