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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

MINICONTO: BONECO VUDU - THIAGO LUCARINI


            Mostrou para o seu namorado, o boneco de vudu que fez dele de zoeira. “Para de ser boba.” – Disse Matheus. “Vamos ver se funciona?” Bia pegou um alfinete e cravou na cabeça do boneco, que frágil se desfez. Ambos riram. Logo, seu namorado levou as mãos à cabeça, segurando-a e começou a gritar descontroladamente. “Para com isso.” – Reclamou Bia, achando ser uma piada. Porém Matheus não parou, ele gritava agonizando. Bia viu surgir no meio da testa dele um buraco que foi gradualmente crescendo, os ossos do crânio de Matheus estalaram e sua cabeça explodiu, cobrindo Bia de sangue e cérebro.   

sábado, 7 de novembro de 2020

MINICONTO: VIDRISMO - THIAGO LUCARINI

Seus molares inferiores esquerdos há dias incomodavam. Analgésicos eram como água. Pegou um espelho de mão, abriu a boca e olhou. Lágrimas rolaram, deixando rastros em sua maquiagem. Percebeu que estava com uma maldição rara, chamada, Vidrismo.  Era inevitável. Todos os seus dentes humanos seriam substituídos por dentes de vidro que a cortariam de dentro para fora, pois uma vez quebrados, voltavam a crescer como facas irregulares e cortantes. Dando-lhe uma morte lenta e dolorosa.

sábado, 31 de outubro de 2020

MINICONTO: MENTE CRIATIVA - THIAGO LUCARINI

Thiago era um desses escritores fracassados antes mesmo de começar, mas que realmente fazia das palavras seu mundo. Por meio de suas histórias ridículas brincava de matar seus amigos e amores passados. Thiago tinha uma mente cheia de pensamentos intrusivos, dos quais, aproveitava-se nas suas criações. Porém, tudo mudou no dia das bruxas daquele ano. As palavras que tanto amou, passou a odiar. Amaldiçoado pelo Verbo, agora, qualquer ideia torta que tivesse tornava-se realidade. Descobriu isso do pior jeito. Dentro de um ônibus, voltando para casa, enquanto uma criança chorava afoita, pensou: “Bem que podia morrer.” O bebê parou de chorar e a mãe gritou, desesperada. Thiago teve provas, o suficiente, após, para descartar as chances de ser coincidência. Antes o que era glória virou um inferno. Thiago tinha que controlar seus pensamentos o tempo todo, de forma deliberada. Trancou-se em casa, a solidão era salvação, uma vez que sem matar outros, seus pensamentos venenosos o apodreciam, literalmente. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

MINICONTO: CORTADOR DE UNHAS - THIAGO LUCARINI

 

Sua unha encravada e inflamada, latejava, deixando Leandro naquele estado semiconsciente do sono. Achou estar delirando quando começou a ouvir o tec-tec de um cortador de unha. Pensou ser só o anseio pelo alívio. Simultaneamente, o peso de algo afundou seu colchão, Leandro abriu os olhos e o seu choque foi tamanho que o imobilizou. Ele estava entre as patas de uma besta, que se parecia um cão, mas que no lugar da boca, possuía as lâminas angulosas e curvas de um cortador de unha, da base da sua nuca saía uma alavanca metálica que sozinha, descia e subia, provocando o tec-tec. O monstro farejou o ar até a unha encravada cheia de pus na mão direita de Leandro e colocou o dedão entre suas lâminas e com um tec, decepou o dedo, saboreando-o, enquanto menino agonizava aos berros, paralisado pela opressão da besta infernal. Logo o Cortador passou para o próximo dedo, e seria assim, até o último.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

MINICONTO: ACEITA UMA DOAÇÃO? - THIAGO LUCARINI

Taty conheceu Fabrício num desses estandes de shopping que vendem livros mais baratos. Taty queria fazer novas aquisições e Fabrício desfazer-se de dois exemplares. O cara astuto tratou logo de se aproximar de Taty e oferecer a doação. Vendo uma oportunidade de ouro, Taty aceitou o presente, sem perceber o aspecto decrépito do garoto. Naquela noite, Taty começou a folhear um dos livros que era de horror, porém cansada, logo pegou no sono. Lá pelas tantas, Taty acordou com uma mulher medonha ao lado da sua cama. Ela usava pouca roupa e sua cabeça era coberta por uma campânula de sino, duas moedas enferrujadas emulavam os olhos. Seu corpo era todo ressequido e fedido. Taty reconheceu a vilã do livro ganhado, que aparecia já nas primeiras páginas. O ser macabro agarrou o braço da garota, balançou a cabeça fazendo o som grave de sino ecoar, deixando um estigma em Taty que gritou assustada e com dor. Sabia, instintivamente, que deveria passar os livros adiante.


terça-feira, 20 de outubro de 2020

MINICONTO: BOCYDIUM GLOBULARE - THIAGO LUCARINI

Era tarde. Diogo, como doutorando em entomologia, ficou para terminar de catalogar os insetos que chegaram. Sonolento, manuseava um Bocydium Globulare, um inseto brasileiro esquisito, parente da cigarra, que estava mais para um pesadelo ambulante. Diogo pregado do dia exaustivo acabou dormindo sobre a bancada, e sem perceber, espetou-se nos processos espinhosos do Bocydium. Antes de amanhecer, o biólogo acordou com uma tremenda dor de cabeça, levantou-se e bateu as costas no armário, o que era impossível. À meia-luz do ambiente, viu sua imagem refletida nos imensos painéis de vidro das coleções, não pôde gritar. Seus olhos tinham uma coloração amarelada com pupilas horizontais como os das cabras. Sobre sua cabeça havia uma crista bifurcada espinhosa com bolas peludas, na parte de trás dela, uma espécie de ferrão espiculado descia até pouco abaixo dos seus joelhos. Do seu dorso pendiam asas translúcidas e pares extras de patas saíam de debaixo dos braços. Sua boca era agora um longo probóscide. Diogo era uma aberração repugnante. Se pudesse, teria chorado feito um humano.

domingo, 18 de outubro de 2020

MINICONTO: COISA DA SUA CABEÇA - THIAGO LUCARINI

 

Era uma mulher vaidosa, gostava de cuidar do seu cabelo grisalho e cacheado, o espelho, a cada dia, tornava-se mais seu amigo. Graciete, ao acordar, naquele dia, sentiu algo diferente e viscoso sobre seu couro cabeludo. Levou a mão para coçar, mas recuou com dor, pois sua mão foi queimada. Levantou às pressas e indo até o espelho do banheiro. Desconcertada, viu que no lugar dos cachos vistosos, agora estavam corós rechonchudos, peludos e listrados presos a sua pele. Eles se esticavam e ondulavam, caminhavam até onde podiam, com suas patinhas pegajosas. Desesperada, Graciete pegou uma tesoura e cortou um dos bichos, a dor foi tanto dele quanto dela. Seu marido bateu à porta do banheiro. A mulher não ousou abrir, seu nojo e asco, misturados ao pavor a paralisou. Em meio às lágrimas, uma forte dor floresceu no seu peito. Graciete notou que os corós farfalhavam e a encaravam com assombro, ela fechou os olhos e entregou-se a liberdade vindoura.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

MINICONTO: BONECA-DE-MILHO - THIAGO LUCARINI

Aquele seria seu último São João. Lamentou, amargamente, ter feito a brincadeira idiota de invocar a Boneca-de-milho, uma entidade sádica e cruel, que caçava suas vítimas, até o último grito. Sua irmã, Elis a alertou do perigo. No meio da festa, Eloanne esbarrava num e noutro, reconheceu rostos familiares e outros tantos estranhos. E pior, viu a Boneca-de-milho, ela tinha uma aparência infantil e carunchosa, porém era um ser infernal e ancião. Usava um vestido feito da palha de milho. Não possuía um dos olhos, no lugar havia uma rodela de espiga de milho. Eloanne deixou sua pamonha cair ao vê-la e começou a correr entre a multidão, que por vezes, reclamava. Sem fôlego e desesperada, parou por um instante, e odiou ser sedentária. Em meio àquelas pessoas, sentiu duas mãos frias agarrar suas pernas. Um portal escuro cobria o chão a sua volta e dele emergia parte da Boneca-de-milho. Mesmo cercada por uma multidão, ninguém escutou os gritos de Eloanne ao ser arrastada para o submundo. Elis, longe dali, chorou sem saber o porquê.