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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

MINICONTO: OBRA ARTÍSTICA - THIAGO LUCARINI

 

        Suas tatuagens coçavam, elas não eram recentes, fator que tornava a coceira descabida. Notou uma vermelhidão ao redor dos vários desenhos, pensou que poderia ser uma reação alérgica tardia. Tudo o que fez para aliviar o incômodo não adiantou. Estava a caminho do hospital quando freou o seu carro de súbito, seus gritos de horror logo se fizeram audíveis. Todo o seu corpo doía insuportavelmente, pois fissuras se abriam por toda a sua pele, suas tatuagens rasgavam sua derme, saltando do corpo, deixando buracos enormes, ganhando vida a partir do seu sangue e carne violada.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

MINICONTO: A MÃO - THIAGO LUCARINI

 

        Acordei com o peso de uma mão apalpando meus pés, ainda sonolento, percebi que ela ia subindo, pensei que fosse minha mãe querendo me acordar, porém num insight me lembrei que meus pais haviam viajado e que eu estava sozinho em casa. E assim que eu me dei conta da situação, a mão agarrou meu pescoço e começou a me enforcar. Me debatendo e com muito alcancei meu celular, a luz de tela iluminou o quarto, e eu ainda ofegante, vi uma mão carcomida sumir por entre as cobertas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

MINICONTO: CATIVEIRO - THIAGO LUCARINI

 

Fazia anos que eu não via qualquer nesga de sol. As correntes que um dia me prenderam, hoje, me libertaram. Enquanto aqueço meu corpo, adaptando-me novamente à vida, um desgraçado esfria no porão.

sábado, 19 de dezembro de 2020

MINICONTO: FURÚNCULO - THIAGO LUCARINI

 

O furúnculo na perna latejava e doía há dias, incomodando, A erupção avermelhada e cheia de pus estava muito grande, deixando a pele febril, brilhante. Sentou-se com as pernas cruzadas pronta para dar fim ao tormento, colocou gazes ao redor do caroço, fez um pique na parte superior e começou a espremer, sangue coagulado e detritos saíram, vazando. Quase no fim do processo, algo surgido do pus agarrou-se ao polegar dela, emitindo um choro sinistro, era uma criatura viva, pequenina e de aparência larval e humanoide ao mesmo tempo. Ela gritou assustada e perdeu os sentidos. Quando acordasse, descobriria que o furúnculo apenas havia se mudado de lugar.

sábado, 12 de dezembro de 2020

MINICONTO: O ACUSADOR - THIAGO LUCARINI

 

A própria besta aconselhava o líder daquela nação, deu a ele suas filhas em casamento, a insensibilidade e a ignorância. O maligno vestiu o rei com o manto prateado da falsa messianidade tecida nos fornos do inferno, brilhante e mortal. Assim, seus servos iam atrás do mito de retidão e bondade como gado atrás do sal, não tardou e o reino caiu em ruínas e, enquanto ruminavam o abate, todos dançavam no compasso orquestrado pelas esposas. Sucedeu que só restou o diabo enganoso com riso fácil por tantas almas que arrecadou.

MINICONTO: VELA AOS ANJOS - THIAGO LUCARINI

 

Eu andava pelas cinzas do que restou do barracão. Tijolos enegrecidos pelo fogo pareciam olhos atentos a me observar, mas não podiam me julgar, não há condenação maior do que aquela dentro de mim. Fumaça sobe do rescaldo, eu sinto frio apesar do calor residual. Os moveis são esqueletos de toda uma vida deposta, a casa agora é um caixão selado em ruínas, altar do medo infantil do escuro. Meus pés vacilam ante toda a cena. Não tenho lágrimas suficientes para apagar a memória. Eu não devia ter deixado a vela acessa junto aos anjos levados de mim.

MINICONTO: VARAL - THIAGO LUCARINI

 

Eu gritei assustada e paralisada de medo. Os prendedores do varal começaram a saltar dos arames feito sapos em fuga, indo ao chão. Minhas roupas recém-lavadas caíam, pois os arames se agitavam e vibravam tensionados por uma forte opressão. Enquanto um dos lençóis despencava ele pairou no ar ao encontrar uma resistência não natural. Logo o lençol seguiu o curso inevitável da gravidade, mas antes de ele tocar o solo totalmente, eu vi pés sumirem sob sua contraditória brancura floral. Desmaiei.

MINICONTO: VIGIADO - THIAGO LUCARINI

 

Sentia-se vigiado. Não havia lugar dentro de sua casa que não sentia aquela presença. Estava constantemente arrepiado, calafrios percorriam seu corpo. Detestou estar sozinho naquela noite. Conferiu por mais de uma vez os cômodos e a área externa da residência. Trancou todas as portas e janelas. O silêncio que se seguiu era reconfortante. Concluiu que estava apenas sendo paranoico. Sucedeu que após se deitar não passou sequer um minuto completo e escutou o som de uma respiração pesada ao seu lado na cama.

MINICONTO: BANQUETE - THIAGO LUCARINI

 

Certamente é a refeição mais gostosa que terá a chance de provar. É a mais cara também. Para estar no banquete exige-se vestimenta adequada, requinte e elegância. Pela raridade do prato eventos como esse acontecem de uma a no máximo duas vezes por ano. Há anos de total escassez também. Observamos todos os preparativos, pois tudo deve ser feito na primeira hora. Estamos perto, apesar de já passar das quatro da manhã. Todos os presentes estão eufóricos para experimentar aquela iguaria. Ouvimos um grito. Salivamos. Finalmente a bolsa rompeu.

MINICONTO: DISTORÇÃO - THIAGO LUCARINI

 

Sempre que me coloco diante do espelho vejo aquele monstro de feições desproporcionais sem qualquer semelhança com uma imagem real. O maldito tem aspecto apodrecido e sujo, cheio de feridas espalhadas pelo corpo ressequido. Eu não conseguia me pentear, me barbear direito, escovar os dentes em paz, tirar uma simples foto. A criatura horrorosa não me dá trégua nunca. Sinto nojo e asco dela. Eu tenho saudades de me ver, ver o eu e não a substituição, mas todo reflexo é morada dele. Jamais me vejo. O abominável nunca me machucou nem se insinuou, no entanto, me privou de mim, do amor e, por isso, eu o odeio.

MINICONTO: ROUPA SUJA - THIAGO LUCARINI

 

Eu gostava de lavar minhas roupas na mão com sabão caseiro. Na ocasião, eu lavava algumas peças e aos poucos a água antes límpida se enchia de espumas brancas. Havia tantas que quase nem dava para ver as roupas, era a vez de esfregar a cueca do meu namorado, assim que a peguei do monte submerso, surgiu uma cabeça feminina que segurava a outra extremidade da peça com os dentes, a coisa avançou sobre minha mão e me mordeu. Eu gritei de dor, logo já não havia nada ali, porém as espumas antes alvas tingiam-se de vermelho com o sangue que escorria do rasgo aberto na minha mão.

MINICONTO: AMEAÇA - THIAGO LUCARINI

 

Sou médico socorrista dos bombeiros. Um dia após chegar do plantão e dar um beijo de boa noite na minha filha, eu me deparei com a Morte em seu berço. Ela me alertou de que eu estava interferindo no seu trabalho e que nem todos deviam ser salvos. Agora toda vez que há uma chamada de resgate, devo estar atento à maca na ambulância, pois se a Morte estiver sobre ela, eu não devo agir, mas se a maca estiver vazia, posso seguir com a rotina de salvamento. O que me amedronta é que sempre a Morte aparece, ela segura uma das bonecas da minha filha numa ameaça clara a sua vida mal iniciada.

MINICONTO: ANA DO BALÃO - THIAGO LUCARINI

 

Ana do Balão, como ficou conhecida, era uma criança mimada e birrenta, que morreu no dia do seu aniversário num trágico acidente de carro. Dizem que seu espírito vaga pelas estradas, arrastando um balão murcho. Se ela aparecer no seu carro como uma carona indesejada, Ana irá te perguntar: “Hoje é seu aniversário?” Se sua resposta for “não” você perderá o controle do veículo, sofrendo algum revés. Se sua resposta for “sim” você terá um mal súbito ao volante, causando um acidente. Relatos afirmam que a resposta para tentar escapar da Ana do Balão é: “Eu não faço aniversário.” Ou perguntar ao fantasma: “Quando é o seu aniversário?” Fica o aviso!

MINICONTO: VISITA - THIAGO LUCARINI

 

Eu fiquei responsável por cuidar da minha sobrinha de três anos naquele dia. Por volta do meio-dia e meia, ela me encarou, apontou o dedinho para a rua e disse: “Vovó chegô, vovó chegô.” Eu olhei para fora e não havia ninguém. Minha sobrinha começou a conversar sozinha como se minha mãe estivesse realmente ali. Minutos depois, meu celular tocou, no visor apareceu “Mãe amada” atendi: “Falo com o filho da senhora Paula?” Receoso, confirmei e a voz séria e formal me informou: “Lamento dizer, mas a Paula sofreu um acidente e veio a óbito...” Tremendo e sem chão, mirrei minha sobrinha, que brincava inocentemente com a “vovó”.

MINICONTO: COELHO - THIAGO LUCARINI

 

Aquele coelho de pelúcia não é um simples brinquedo. Muitos riem de mim, mas falo sério. Eu o peguei andando pela casa algumas vezes. Meu marido diz que eu estou ficando louca. Só eu ver não significa que é menos verdade. Já tentei me livrar dele de tudo quanto é jeito, porém nada adiantou. Durante o dia deixo o coelho preso pelas orelhas no varal, isso o irrita. Contudo, pelo menos eu sei exatamente onde ele está. Algo que não posso dizer durante a noite, quando escuto seus passos macios pelo telhado, dentro de casa. Tirei uma foto dele e se você tiver coragem de encará-lo por algum tempo, verá que ele se mexe. Por favor, diga-me que não estou louca.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

MINICONTO: ÁRVORE - THIAGO LUCARINI

De frente a janela do meu quarto havia uma árvore, uma velha mangueira. Suas folhas ciciavam o tempo todo me atormentando. Eu a detestava e o sentimento era mútuo. Durante as chuvas, a árvore sempre quebrava partes do telhado, em noites de ventania, seus galhos raspavam o vidro da janela, espantando meu sono. Naquela noite o ciciar infernal me despertou outra vez, encarei a maldita, e pela primeira vez, eu vi olhos não naturais me encararem de volta. Furioso, fui à garagem, peguei um machado e comecei a cortar o seu tronco. Já amanhecendo, a árvore tombou, caindo sobre minhas pernas, decepando-as. Seiva e sangue, carne e madeira se misturavam na alva, ambos morrendo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

MINICONTO: VÍCIO - THIAGO LUCARINI

Minha cabeça doía e latejava, minhas mãos tremiam, tudo efeito da abstinência do cigarro. Não posso nem devo voltar a fumar, pois eu vi o horror do vício que me consumia. Na noite do dia em que tomei a decisão de parar de fumar, eu acordei de madrugada e ao lado da minha cama estava um ser velho e encurvado, parecia feito de alcatrão, com olhos acesos como guimbas de cigarro que iluminavam seu rosto cadavérico. O Vício mascava tabaco, saliva escura de fumo escorria por sua boca murcha e caía diretamente sobre a minha.  O Vício me observa como um mau agouro, mas ele está enfraquecendo, e assim continuará até eu apagá-lo de vez.

MINICONTO: CABEÇA FLUTUANTE - THIAGO LUCARINI

 

O homem repetiu o processo de captura e depois com toda a sua força puxou o pescado que caiu com um baque seco na lataria do barco. Com sua lanterna viu que se tratava de um peixe, mas de uma cabeça humana fisgada pela bochecha, seus olhos eram pálidos e a pele aquosa, enrugada e cheia de feridas, com as orelhas, ela pulava e se debatia, tentou morder o homem que tomado por medo e impulso, chutou a cabeça à água, cortou a linha da vara e caiu sentado. Por um instante, a cabeça flutuante encarou o homem do limiar das águas feito um jacaré e, a seguir, afundou com um gorgolejar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

MINICONTO: LINHA 112 - THIAGO LUCARINI

Antônio prestava atenção na conversa de duas senhoras sentadas a sua frente no último ônibus da noite. “...dizem que não é bom pegar o último ônibus de qualquer linha. Coisas ruins acontecem: aparições, estupros, seres de outros mundos, violência...” Todo arrepiado Antônio se levantou e deu o sinal. Já à porta para descer, as velhas o encararam com olhos leitosos e suas bocas se escancararam até a altura do peito. O veículo parou com um solavanco e Antônio desceu aos tropeços do ônibus que, após o fato, seguiu viagem sem nenhum outro passageiro a bordo.   

MINICONTO: PÓS-PARTO - THIAGO LUCARINI

Ela não conseguia acreditar que aquela aberração havia saído de dentro dela. Diziam que ela deveria amá-lo, mas como? Sentia uma profunda repulsa por aquela criatura molenga de olhos desproporcionais, barriga grande e boca sempre escancarada de choro ou fome. Aquela coisa desagradável abriu caminho para a luz através de sua carne, contudo, não era seu filho. Os tentáculos úmidos, as antenas sensoriais e a pele opaca e acinzentada confirmavam isso.