Suas tatuagens coçavam, elas não eram
recentes, fator que tornava a coceira descabida. Notou uma vermelhidão ao redor
dos vários desenhos, pensou que poderia ser uma reação alérgica tardia. Tudo o
que fez para aliviar o incômodo não adiantou. Estava a caminho do hospital
quando freou o seu carro de súbito, seus gritos de horror logo se fizeram audíveis.
Todo o seu corpo doía insuportavelmente, pois fissuras se abriam por toda a sua
pele, suas tatuagens rasgavam sua derme, saltando do corpo, deixando buracos
enormes, ganhando vida a partir do seu sangue e carne violada.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
MINICONTO: OBRA ARTÍSTICA - THIAGO LUCARINI
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
MINICONTO: A MÃO - THIAGO LUCARINI
Acordei com o peso de uma mão apalpando meus
pés, ainda sonolento, percebi que ela ia subindo, pensei que fosse minha mãe
querendo me acordar, porém num insight me lembrei que meus pais haviam viajado
e que eu estava sozinho em casa. E assim que eu me dei conta da situação, a mão
agarrou meu pescoço e começou a me enforcar. Me debatendo e com muito alcancei
meu celular, a luz de tela iluminou o quarto, e eu ainda ofegante, vi uma mão
carcomida sumir por entre as cobertas.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
MINICONTO: OPINIÃO - THIAGO LUCARINI
sábado, 19 de dezembro de 2020
MINICONTO: FURÚNCULO - THIAGO LUCARINI
O furúnculo na perna
latejava e doía há dias, incomodando, A erupção avermelhada e cheia de pus
estava muito grande, deixando a pele febril, brilhante. Sentou-se com as pernas
cruzadas pronta para dar fim ao tormento, colocou gazes ao redor do caroço, fez
um pique na parte superior e começou a espremer, sangue coagulado e detritos saíram,
vazando. Quase no fim do processo, algo surgido do pus agarrou-se ao polegar
dela, emitindo um choro sinistro, era uma criatura viva, pequenina e de aparência
larval e humanoide ao mesmo tempo. Ela gritou assustada e perdeu os sentidos.
Quando acordasse, descobriria que o furúnculo apenas havia se mudado de lugar.
sábado, 12 de dezembro de 2020
MINICONTO: O ACUSADOR - THIAGO LUCARINI
A própria besta aconselhava
o líder daquela nação, deu a ele suas filhas em casamento, a insensibilidade e
a ignorância. O maligno vestiu o rei com o manto prateado da falsa messianidade
tecida nos fornos do inferno, brilhante e mortal. Assim, seus servos iam atrás do
mito de retidão e bondade como gado atrás do sal, não tardou e o reino caiu em
ruínas e, enquanto ruminavam o abate, todos dançavam no compasso orquestrado
pelas esposas. Sucedeu que só restou o diabo enganoso com riso fácil por tantas
almas que arrecadou.
MINICONTO: VARAL - THIAGO LUCARINI
Eu gritei assustada e
paralisada de medo. Os prendedores do varal começaram a saltar dos arames feito
sapos em fuga, indo ao chão. Minhas roupas recém-lavadas caíam, pois os arames
se agitavam e vibravam tensionados por uma forte opressão. Enquanto um dos lençóis
despencava ele pairou no ar ao encontrar uma resistência não natural. Logo o
lençol seguiu o curso inevitável da gravidade, mas antes de ele tocar o solo
totalmente, eu vi pés sumirem sob sua contraditória brancura floral. Desmaiei.
MINICONTO: DESPEDIDA - THIAGO LUCARINI
Seu marido chegou sem ela
percebê-lo e a beijou afetuosamente. Sentou-se no sofá e pediu para que Suzana
sentasse ao seu lado. Não era incomum, pois ele sempre foi muito amoroso. Na
televisão passava o jornal local. Logo ela fez menção de se levantar, mas Milo
segurou sua mão e na tevê entrou um link ao vivo, noticiando um grave acidente
na rodovia que havia acabado de ocorrer, tinham identificado um dos motoristas
e o jornalista disse o nome completo de Milo. Suzana trêmula se virou para seu
marido, que com olhos marejados e um sorriso, desaparecia.
MINICONTO: VIGIADO - THIAGO LUCARINI
Sentia-se vigiado. Não
havia lugar dentro de sua casa que não sentia aquela presença. Estava
constantemente arrepiado, calafrios percorriam seu corpo. Detestou estar
sozinho naquela noite. Conferiu por mais de uma vez os cômodos e a área externa
da residência. Trancou todas as portas e janelas. O silêncio que se seguiu era
reconfortante. Concluiu que estava apenas sendo paranoico. Sucedeu que após se
deitar não passou sequer um minuto completo e escutou o som de uma respiração
pesada ao seu lado na cama.
MINICONTO: DISTORÇÃO - THIAGO LUCARINI
Sempre que me coloco diante
do espelho vejo aquele monstro de feições desproporcionais sem qualquer
semelhança com uma imagem real. O maldito tem aspecto apodrecido e sujo, cheio
de feridas espalhadas pelo corpo ressequido. Eu não conseguia me pentear, me
barbear direito, escovar os dentes em paz, tirar uma simples foto. A criatura
horrorosa não me dá trégua nunca. Sinto nojo e asco dela. Eu tenho saudades de
me ver, ver o eu e não a substituição, mas todo reflexo é morada dele. Jamais
me vejo. O abominável nunca me machucou nem se insinuou, no entanto, me privou
de mim, do amor e, por isso, eu o odeio.
MINICONTO: ROUPA SUJA - THIAGO LUCARINI
Eu gostava de lavar minhas
roupas na mão com sabão caseiro. Na ocasião, eu lavava algumas peças e aos
poucos a água antes límpida se enchia de espumas brancas. Havia tantas que
quase nem dava para ver as roupas, era a vez de esfregar a cueca do meu
namorado, assim que a peguei do monte submerso, surgiu uma cabeça feminina que
segurava a outra extremidade da peça com os dentes, a coisa avançou sobre minha
mão e me mordeu. Eu gritei de dor, logo já não havia nada ali, porém as espumas
antes alvas tingiam-se de vermelho com o sangue que escorria do rasgo aberto na
minha mão.
MINICONTO: AMEAÇA - THIAGO LUCARINI
Sou médico socorrista dos
bombeiros. Um dia após chegar do plantão e dar um beijo de boa noite na minha
filha, eu me deparei com a Morte em seu berço. Ela me alertou de que eu estava
interferindo no seu trabalho e que nem todos deviam ser salvos. Agora toda vez
que há uma chamada de resgate, devo estar atento à maca na ambulância, pois se
a Morte estiver sobre ela, eu não devo agir, mas se a maca estiver vazia, posso
seguir com a rotina de salvamento. O que me amedronta é que sempre a Morte
aparece, ela segura uma das bonecas da minha filha numa ameaça clara a sua vida
mal iniciada.
MINICONTO: ANA DO BALÃO - THIAGO LUCARINI
Ana do Balão, como ficou
conhecida, era uma criança mimada e birrenta, que morreu no dia do seu aniversário
num trágico acidente de carro. Dizem que seu espírito vaga pelas estradas,
arrastando um balão murcho. Se ela aparecer no seu carro como uma carona
indesejada, Ana irá te perguntar: “Hoje é seu aniversário?” Se sua resposta for
“não” você perderá o controle do veículo, sofrendo algum revés. Se sua resposta
for “sim” você terá um mal súbito ao volante, causando um acidente. Relatos
afirmam que a resposta para tentar escapar da Ana do Balão é: “Eu não faço
aniversário.” Ou perguntar ao fantasma: “Quando é o seu aniversário?” Fica o
aviso!
MINICONTO: O BATEDOR DE PORTAS - THIAGO LUCARINI
Não é só o vento, dizem
isso apenas para nos acalmar ou negar a situação real. Eu também desacreditava,
mas tudo mudou. Eu fui banhar e deixei a porta encostada, não demorou muito e
ela começou a bater repetidamente, continuei meu banho ao som das batidas. Já
enrolado na toalha peguei na maçaneta e puxei a porta entreaberta para abri-la
totalmente, porém uma força contrária à minha travou a porta, coloquei toda a
minha energia, mas não consegui movê-la. Coloquei a cabeça pela fresta e vi um
ser encarquilhado segurando a maçaneta do outro lado. Ele ria sem me perceber,
eu gelei. A seguir a porta se escancarou, rangendo no vazio.
MINICONTO: VISITA - THIAGO LUCARINI
Eu fiquei responsável por
cuidar da minha sobrinha de três anos naquele dia. Por volta do meio-dia e
meia, ela me encarou, apontou o dedinho para a rua e disse: “Vovó chegô, vovó
chegô.” Eu olhei para fora e não havia ninguém. Minha sobrinha começou a
conversar sozinha como se minha mãe estivesse realmente ali. Minutos depois,
meu celular tocou, no visor apareceu “Mãe amada” atendi: “Falo com o filho da
senhora Paula?” Receoso, confirmei e a voz séria e formal me informou: “Lamento
dizer, mas a Paula sofreu um acidente e veio a óbito...” Tremendo e sem chão,
mirrei minha sobrinha, que brincava inocentemente com a “vovó”.
MINICONTO: COELHO - THIAGO LUCARINI
Aquele coelho de pelúcia
não é um simples brinquedo. Muitos riem de mim, mas falo sério. Eu o peguei
andando pela casa algumas vezes. Meu marido diz que eu estou ficando louca. Só
eu ver não significa que é menos verdade. Já tentei me livrar dele de tudo
quanto é jeito, porém nada adiantou. Durante o dia deixo o coelho preso pelas
orelhas no varal, isso o irrita. Contudo, pelo menos eu sei exatamente onde ele
está. Algo que não posso dizer durante a noite, quando escuto seus passos
macios pelo telhado, dentro de casa. Tirei uma foto dele e se você tiver
coragem de encará-lo por algum tempo, verá que ele se mexe. Por favor, diga-me
que não estou louca.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
MINICONTO: TROTE - THIAGO LUCARINI
Eu não devia ter passado o
trote. Liguei só para zoar, fazer uma brincadeirinha de leve. Achei que a família
apreciaria um pouco um pouco de humor num momento tão difícil. Mas assim que
desliguei o telefone, aconteceu. Ao meu lado surgiu uma criança com marcas de
estrangulamento e com o torso parcialmente carbonizado. De imediato, reconheci
a vítima do caso e entrei em pânico. O fantasma me persegue há dias. A polícia
e a família ainda procuram, na dúvida e esperança, a criança ou um corpo,
enquanto eu carrego a certeza e o assombro frio da morte.
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
MINICONTO: VÍCIO - THIAGO LUCARINI
Minha cabeça doía e
latejava, minhas mãos tremiam, tudo efeito da abstinência do cigarro. Não posso
nem devo voltar a fumar, pois eu vi o horror do vício que me consumia. Na noite
do dia em que tomei a decisão de parar de fumar, eu acordei de madrugada e ao
lado da minha cama estava um ser velho e encurvado, parecia feito de alcatrão,
com olhos acesos como guimbas de cigarro que iluminavam seu rosto cadavérico. O
Vício mascava tabaco, saliva escura de fumo escorria por sua boca murcha e caía
diretamente sobre a minha. O Vício me
observa como um mau agouro, mas ele está enfraquecendo, e assim continuará até
eu apagá-lo de vez.
MINICONTO: CABEÇA FLUTUANTE - THIAGO LUCARINI
O homem repetiu o processo
de captura e depois com toda a sua força puxou o pescado que caiu com um baque
seco na lataria do barco. Com sua lanterna viu que se tratava de um peixe, mas
de uma cabeça humana fisgada pela bochecha, seus olhos eram pálidos e a pele
aquosa, enrugada e cheia de feridas, com as orelhas, ela pulava e se debatia,
tentou morder o homem que tomado por medo e impulso, chutou a cabeça à água,
cortou a linha da vara e caiu sentado. Por um instante, a cabeça flutuante
encarou o homem do limiar das águas feito um jacaré e, a seguir, afundou com um
gorgolejar.
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
MINICONTOS: DEVORADOR DE ANJOS E BRINCADEIRA DE CRIANÇA - THIAGO LUCARINI
Eu sou médica plantonista
de uma UTI neonatal, não revelarei meu nome, mas farei um alerta, peço que
acreditem, pois é real. Nas madrugadas dos hospitais, entre sons de
respiradores e monitores cardíacos ronda uma criatura chamada, Devorador de
Anjos, trata-se de uma massa escura e disforme de pura maldade. Ela busca bebês
que por algum motivo foram amaldiçoados por pais cruéis. A criatura,
simplesmente, paira sobre a incubadora ou berço e a criança chora por um
instante, e depois não chora nunca mais. Eu vi, juro que vi. Amem seus filhos
desde o ventre e não digam palavras avessas, pois essa é a única forma de
salvar os anjos do Devorador.
BRINCADEIRA DE CRIANÇA
Ficou ao lado da porta,
escutando sua filha brincar com suas bonecas. Ela dizia: “Como você tá linda.
Como você trabalha. Não precisa ficar emburrada. Tá na hora de fazer o dever de
casa.” A mãe riu baixinho dos comentários inocentes de sua filha e foi quando
ouviu. “Não farei a porra de tarefa nenhuma, piralha.” A mãe sobressaltada
entrou de supetão no quarto, mas lá só estavam as bonecas e sua filha.
MINICONTO: LINHA 112 - THIAGO LUCARINI
Antônio prestava atenção na
conversa de duas senhoras sentadas a sua frente no último ônibus da noite. “...dizem
que não é bom pegar o último ônibus de qualquer linha. Coisas ruins acontecem:
aparições, estupros, seres de outros mundos, violência...” Todo arrepiado
Antônio se levantou e deu o sinal. Já à porta para descer, as velhas o
encararam com olhos leitosos e suas bocas se escancararam até a altura do
peito. O veículo parou com um solavanco e Antônio desceu aos tropeços do ônibus
que, após o fato, seguiu viagem sem nenhum outro passageiro a bordo.


















