Thiago era um desses
escritores fracassados antes mesmo de começar, mas que realmente fazia das
palavras seu mundo. Por meio de suas histórias ridículas brincava de matar seus
amigos e amores passados. Thiago tinha uma mente cheia de pensamentos
intrusivos, dos quais, aproveitava-se nas suas criações. Porém, tudo mudou no
dia das bruxas daquele ano. As palavras que tanto amou, passou a odiar.
Amaldiçoado pelo Verbo, agora, qualquer ideia torta que tivesse tornava-se
realidade. Descobriu isso do pior jeito. Dentro de um ônibus, voltando para
casa, enquanto uma criança chorava afoita, pensou: “Bem que podia morrer.” O
bebê parou de chorar e a mãe gritou, desesperada. Thiago teve provas, o
suficiente, após, para descartar as chances de ser coincidência. Antes o que
era glória virou um inferno. Thiago tinha que controlar seus pensamentos o
tempo todo, de forma deliberada. Trancou-se em casa, a solidão era salvação,
uma vez que sem matar outros, seus pensamentos venenosos o apodreciam,
literalmente.
sábado, 31 de outubro de 2020
MINICONTO: MENTE CRIATIVA - THIAGO LUCARINI
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
MINICONTO: PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO - THIAGO LUCARINI
Era dia de eleição no
inferno. Gustavo vacilou diante da urna. Teria que colocar um dedo na boca de
uma sanguessuga vampiresca, deixá-la beber uma gota do seu plasma e induzir sua
vontade através do pensamento. Um painel contabilizava os votos. Gustavo tinha
que escolher muito bem, o Eleito, ou ele perderia os poucos direitos que
exercia e padeceria nos abusos punitivos. Deveria selecionar o menos pior
dentre os infernais. Tentar acreditar numa esperança inexistente. Independente
de quem vencesse, todos estariam suspensos de castigos por um ano. Mas como
seria pelo próximo milênio? A urna viva, sedenta o olhava impaciente. Gustavo
era um fiel na crença de que na dor não há glória, a urna que esperasse. Sua
eternidade estava em jogo, por mais que todos os candidatos ora ou outra se
repetissem. A escolha não era real e estava ciente daquilo que viria. O voto
era uma esperança onírica e leviana, ou seja, só mais uma punição disfarçada de
prêmio. Gustavo colocou o dedo na boca da sanguessuga demoníaca. Ele era a
última alma a votar no status quo do submundo.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
MINICONTO: DEPOIS DA COLHEITA DE COGUMELOS - THIAGO LUCARINI
Deise e Daniela não sabiam
o que era andar nas ruas sem proteção, aquela parafernália de astronautas
cedida pelo governo. Viam as notícias sobre o ‘derretimento’ e que só dentro de
casa era seguro, graças ao equipamento de purificação do ar. A guerra nuclear
alterou para sempre a atmosfera terrestre, tornando-a corrosiva para os humanos.
Porém, para as gêmeas de oito anos, a linha entre fantasia e realidade era bem
tênue. Daniela convenceu Deise, de que tudo aquilo não passava de superproteção
dos pais, pois nunca tinha visto, ao vivo, alguém derreter. Daniela era uma
negacionista dos fatos. Infiltrada com as ideias da irmã, Deise cedeu ao plano.
Ao final daquela tarde, foram para o jardim, ambas saíram de casa com os trajes
de segurança. Daniela encarou a irmã: “Pronta?” Deise fez um gesto de positivo
e levantou o capacete, automaticamente, a garota começou a derreter aos gritos,
seu corpo virou uma poça de pus aos pés de Daniela que não se abalou, pois ela
podia até ser contrária, mas não era burra o bastante para se expor primeiro.
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
MINICONTO: ACEITA UMA DOAÇÃO? - THIAGO LUCARINI
Taty conheceu Fabrício num
desses estandes de shopping que vendem livros mais baratos. Taty queria fazer
novas aquisições e Fabrício desfazer-se de dois exemplares. O cara astuto
tratou logo de se aproximar de Taty e oferecer a doação. Vendo uma oportunidade
de ouro, Taty aceitou o presente, sem perceber o aspecto decrépito do garoto.
Naquela noite, Taty começou a folhear um dos livros que era de horror, porém
cansada, logo pegou no sono. Lá pelas tantas, Taty acordou com uma mulher
medonha ao lado da sua cama. Ela usava pouca roupa e sua cabeça era coberta por
uma campânula de sino, duas moedas enferrujadas emulavam os olhos. Seu corpo
era todo ressequido e fedido. Taty reconheceu a vilã do livro ganhado, que aparecia
já nas primeiras páginas. O ser macabro agarrou o braço da garota, balançou a
cabeça fazendo o som grave de sino ecoar, deixando um estigma em Taty que
gritou assustada e com dor. Sabia, instintivamente, que deveria passar os
livros adiante.



