quinta-feira, 31 de agosto de 2017

POESIA - DESFEITO DAS TEMPESTADES - THIAGO LUCARINI

As tempestades morrem 
As águas secam e o firmamento

É lápide sem marca além do azul.
Novas nuvens em alvo epitáfio circulam

Vagam pelo céu sem fixação
Não permitindo exata localização

Do corpo desfeito das tempestades
Sem manchas ou ossos o alto anil

Nunca apresenta resquícios das tragédias
Tempestuosas que sobre ele se abatem.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

CRÔNICA - OS RIOS DO POETA - THIAGO LUCARINI

Para o poeta as linhas são rios, águas da vida, leito precioso de onde pesca seu alimento insubstancial e na sua correnteza navega feito folha à deriva sem âncora, pois sincera maravilha é seguir sem aprisionamento ou amarras. As margens revelam possibilidades incontáveis, se por acaso o rio seca basta paciente espera e logo tudo volta a jorrar verve. Os rios do poeta são de corpos líquidos diversos, possuem água de bom sustento, manancial, milagre e dificilmente hão de oferecer sede ou fome.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

CRÔNICA - NA HORA MAIS ESCURA - THIAGO LUCARINI

Temo pela hora mais escura, pois nela hei de perder minha ventania, minhas nuvens carregadas de tempestade, meu estado de noite perene. Temo por esta hora de raiar, de clarear, de alvorecer, pois me acostumei com a densidade e suficiência noturna onde as estrelas são palavras e seu avanço só depende da mão, um Apolo auriga inverso. Observo a sombra que sobre o papel projeto, por vezes é só a penumbra de borrões promissores em outras é breu fechado capaz de gerar luz, compacto pactuado em significado da lei maior dos signos expressos ao contrário do ordinário. Penso no horizonte de promessas do papel e na sua claridade inorgânica e venho sobre ele feito guerreiro com minha noite imaginativa antes que o vazio do seu corte de brancura estéril me surpreenda e nesta suspensão de bloqueio criativo das trevas verdadeiras me prenda.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

POESIA - A PEDRA E LÁZARO - THIAGO LUCARINI

Selou-me o destino com uma pedra pesada 
Demais para meus fracos braços levantar.

Sepulto numa gruta de esquecimento
Metaforicamente chamada de morte 

Permanecei à espera de algo maior que o fim.
Pensamentos de vazio me circundavam ferozmente

À medida que apodrecia em minha humana agonia,
Sabia que por conta própria não romperia a pedra posta,

Nem voltaria à vida do lado do lado de lá. Após tantos dias
Meus olhos cerrados num céu de asco e escarro se abriram,

Ouvi o clamor da salvação do Santo chamado:
“Lázaro, levanta-te e anda, venha para fora.” 
Fora à ordem me dada pelo amigo Senhor.

Sem contestar, fendeu-se a pedra, puseram-se meus pés
A caminhar rumo à voz capaz de erguer qualquer homem.

CRÔNICA - DESAMEI - THIAGO LUCARINI

Estive longe do amor por tempo demais, e neste desamor insensível me congelei, a solidão do sentir me é completa. O toque não me arrepia, as palavras não me emocionam, os atos não me importam, a desgraça não me comove, a comédia não me causa riso. Vazio. Frio. Paz. É tão estranho olhar para aqueles que eu devia supostamente amar e não achar reflexo. Tenho um baço véu de carne leitosa sobre os olhos. Cinza. Careço de plena significação. Ignoro velhas convenções de prisão emocional. Sangue, amizade, fé não me são laço. Sem amarras. Liso. Este é meu perene estar fora do Éden, longe dos olhos de Deus, do seu manto de pureza e ordem maior. Sou anjo de máxima queda. Extirpadas asas. Não pense que dentro reside um grande mal nem mesmo isso tenho em mim. Não carrego coisa alguma. Vácuo. Não vejo sentido, propósito para muito. Dia por dia me justifica. Não é razão para este neutro algo estúpido que me fiz, mas em primaveras passadas mendiguei amor demais, implorei às pessoas erradas que me amassem, colhi migalhas, engoli esmolas vestidas de falsa sinceridade, e isso foi descolorindo, envenenando meu coração, e de fato, morri sem cair. Roubaram minha glória. Depositei meu coração em pedestais trincados. Consequência em longo prazo: desamei geral. Enraizei nova crença infecunda. Apenas a lógica fria me segue, não tenho complemento além dos vícios impuros de mim, meu eu secou da forma mais brutal possível. Hoje só a dor estéril me é absoluta, meu sentir mais sincero, etéreo, pois é mais da metade pulsante de mim.

domingo, 27 de agosto de 2017

CRÔNICA - ROSAS PASSADAS A FERRO - THIAGO LUCARINI

Perdi minha humanidade no rastro do papel, quanto mais de mim ele exigia mais de mim sugava, puxava, levava partes sagradas sem oferecer cura, semeando-me com anemia privativa, dando-me semelhante palidez abstrata. Neste romance unilateral, quase abusivo, somente eu servia vida, de longe fui vítima, porém torturei a mando, passei todas as rosas a ferro para tirar as rugas e fazer linhas perfumadas em sua carne virginal para caber ali milimétrica poesia de densos quilates, e neste ato, fui me exaurindo, secando pelos dedos as veias de sensível inspiração, enchendo o mundo de flores etéreas que não fossem ultrajantes rosas de uso subversivo, e estas outras, sim, pisadas e enrugadas com indecisão e verdadeira beleza mantida pelo defeito único das cores várias. O papel tirou de mim confissões antes impossíveis, segredos do sexo, levezas despercebidas, pensamentos quase filosóficos e sem importância alguma como devem ser, sentimentos rasos, profundos e a graça da neutralidade, permitiu-me num momento de última bondade este não sentir descompromissado da dor alheia, eu só tinha tempo para minha própria sangria e das rosas, fabriquei palavras muito mais para ferir que para curar, somente palavra por palavra machuca para sempre e eu fui um ferido nato, este me foi o maior exemplo concedido pelo papel. Por fim, estava eu seco, desidratado de lembranças, extirpado de sentires, de doce compaixão, de sincera contradição, ali, no limite do encerramento me vi papel vazio, ossos por linhas, de bocarra aberta, pronto para roubar a vida de outro pateta poeta e fingir uma vida que jamais seria capaz de conseguir por conta própria.

sábado, 26 de agosto de 2017

POESIA - TRAGÉDIA DO SÍMBOLO - THIAGO LUCARINI

Triste, triste palhaço
O que faremos com esta tristeza
Fria feito amargo aço?

Triste, triste palhaço
Livre-se deste nariz vermelho
E palidez de enterro inalcançável.

Triste, triste palhaço
Existe maior tragédia
Do que ser triste para alegrar?