terça-feira, 29 de dezembro de 2015

POESIA - ANIMA MUNDI - THIAGO LUCARINI

Vi este fadário
As cordas da marionete
Nesta pantomima vida
Onde o imaterial
É parte indissociável
Do material humano.
A alma do mundo
Dos homens, e do
Universo, se mesclam
Teorizam o ideal central
E a regência do cosmo.
Ambas as energias
Fluem para um só
Oceano de estrelas
Um trono pilar
De um singular Senhor.
Anima mundi
Alea jact est!
Memento mori.
Vamos à imortalidade
Da alma de todas as coisas
Embaladas nas águas
De uma força regente

Das estrelas aos vaga-lumes.

POESIA - PÉS DESCALÇOS - THIAGO LUCARINI

Meus pés descalços
De calos niilistas
Cansados de beijar
As pedras com arestas
Deste tolo chão pisado,
Pisado e sem razão
A levar nas suas costas
Pele, sangue e deixar
Bolhas de água salgada
Nestes pés cansados,
Sem sabedoria e devotos
A penitência do caminho.
Pés de nada carnal
Caminho de cilício
Em sagrada comunhão.
Será que um dia virá
A este nobre chão
E a estes meus pés descalços

As flores e bálsamo de salvação?

POESIA - HIJAB - THIAGO LUCARINI

Cobertura preconizada
O véu que separa
Linearmente
O homem de Deus.
O hijab cobre a cabeça
De homens e mulheres
Deixando debaixo
Os bons costumes
E a moralidade.
Hijab de seda e leveza
Ergue-se sob o sol
Do médio oriente
Separando e mitificando
O mundano do divino.
Seda e algodão
Ouro e pó
Nuvem e chão
Alto e baixo
Retratados
Num pedaço de tecido,
Tecido para adorar

E ornar a fé de um povo.

SONETO - MONTENEGRO - THIAGO LUCARINI

A Fernanda Montenegro

Atriz é uma rosa que se abre na primavera
É a rosa que chora suas pétalas no inverno.
É a iluminação através do sonho eterno
É o grito do mar vestido de bolhas e espera.

Nestas linhas faciais de plena expressão
Ressoa o canto de mil vidas advindas
De frágil papel virginal sem berlindas.
Sobe o sopro cicerone do palco extensão

Deste corpo-tela a ansiar nova interpretação.
A atriz é pérola, é o pardal, é a cobra, é o corvo,
É a representação de outro, sobre si sem estorvo.

Uma estrela central, o oceano, um Montenegro
Que revela alvura de plácidos passos trilhados

Dama de finas tramas, Fernanda de belos atos.  

POESIA - CORISCO - THIAGO LUCARINI

Noite. Alta tempestade.
Pedra de fogo estelar
Corisco caiu do céu
Coroa na ponta do raio
Enterrando-se a sete palmos.
A cada ano, um palmo regressa.
Sete anos passados, outro raio
A ponta de flecha submersa em terra
É levada de volta ao seu útero nuvem
Esperando um novo momento
De recolher outra vez sabedoria

Desta baixa terra sem tempestade.

sábado, 26 de dezembro de 2015

POESIA - ARTE TÂNTRICA - THIAGO LUCARINI



A Marcos Avelino Martins

Ele se embola nas palavras
Cheias de seivas e gozo pudico
Num amontoado de corpos e signos
Lubrificando as ideias e conceitos
Numa entrega de êxtase, devoção e paixão.
Moldando a sua forma e a delas
Amantes conspiradoras de júbilo
Em posições difíceis, novas e desafiadoras
Com alinhamento e contornos diversos.
Sua língua, por vezes, é pincel quente
A umedecer a fluidez de ritmo
Do corpo-tela delas saliente.
Ele se entrega completamente aos seus fetiches
Elas adoram serem usadas com classe e exotismo.
Ele, poeta voluptuoso de Saber ágil
Elas, as Palavras desta arte tântrica,
Que se chama: escrever
Envolver num último ato sagrado, ambos.
Íntimos e imaculados têm
Seu nirvana de amálgamas,
Sua catarse límpida; brilha a Kundaliní.
Os amantes explodem conjuntamente
Num misterioso gozo artístico
Que cola e apara as arestas duras

Deste mundo pouco experimental.

POESIA - CADEIRA DE BALANÇO - THIAGO LUCARINI

Cadeira de balanço
Sozinha, balançando
Rangendo com o peso
Do vento, do tempo
Balançando, rangendo
Sopesando, moendo
Areia sob os pés-côncavos
Que ficam gangorreando
Balançando, rangendo
Feito pêndulo autêntico.

Cadeira de balanço
Sozinha, balançando
Rangendo com o peso
Do vento, do tempo
Balançando, rangendo.

Balançando, rangendo
Balançando, rangendo
Balançando, rangendo

Rangendo
Balançando
Rangendo
Balançando
Feito pêndulo autêntico
Moendo em areia fina
As bordas grossas do tempo.

Rangendo
Balançando
Balançando

Rangendo.