quarta-feira, 2 de setembro de 2015

SONETO - HEREGE - THIAGO LUCARINI

Queimei sem querer a cruz
Fui condenado pelo insosso coro
De santos sem altares; oco
Verteu de mim puro pus.

Condenado, eu saí de sob os olhos da igreja
Sou herege antidogmático ao relento
Meus lamentos são para o vento
Recebo as dez pragas em peleja.

Injuriado por discordar do comum
Meu fim é certo como de tantos, sou mais um
A buscar o sentido de amplidão de fé.

Não é que não acredite em Deus,
Não acredito nos homens e suas convenções

Minha utopia é a liberdade as nações.

POESIA - VESTIDO VERMELHO - THIAGO LUCARINI

Arranque este vestido vermelho
Que se confunde com seus lábios.
Seus beijos acendem pecado
Luxúria e um gozo sepulto
Em tanto tecido rubro e desnecessário.
Quero a rosa vermelha que brota
Na horta entre suas pernas faceiras
Femininas, de lógica incerta.
Dou glória ao cio de mulher rosicler!
Quero o leite doce destes seios maduros
Quero a perdição dos teus olhos convidativos
Quero cada célula do teu corpo
que ao meu toque é fogueira inextinguível.
Quero-a por completo, nua, sem
Este vestido vermelho, quero

A nudez vermelha da tua alma apaixonada.

POESIA - LINHA DA FELICIDADE - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

A felicidade é uma linha na areia fofa
que, ás vezes, um pedaço se apaga,
Mas depois, o risco, continua
Superando o vácuo passado.
E está é uma linha sempre sujeita
Ao corte ou interrupção

Do dedo do tempo retirante.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

POESIA - CAMPO DE FLORES-NEURÔNIOS - THIAGO LUCARINI

Campo de flores-neurônios
Germinadas de neurônios-sementes
Regadas com interstícios celulares
Dendritos-corolas de pétalas condutoras
Axônios-caules fixam a planta exótica.
A fenda sináptica de cultivo e espaço
Neurotransmissores químicos e elétricos
Geram o impulso de transmissão de informação
Corrente de comunicação e processamento
Deste universo-cérebro de massa cinzenta e branca
Com mais de 100 bilhões de flores-estrelas.

POESIA - HÁ GENTE QUE SE INFILTRA - THIAGO LUCARINI


Há gente que se infiltra
dentro de outra, e aí mora,
vivendo do que filtra,
que subtraiu para fora.
João Cabral de Melo Neto

Minhas raízes foram invadidas
Cupins estão entrando, comendo
Roendo o oco do meu coração.
Parasitas infestam-me
Sou hospedeiro, de tudo
Bem e mal, vermes, insetos
Deuses insossos e apocalípticos
E pessoas, o melhor
e o pior de tudo isso,
Pois para este último
Não há remédio eficiente
Além da morte, que também
Hospeda-se em mim, desde
Meu nascimento verde.

POESIA - PORTUGUÊS - THIAGO LUCARINI

Língua oficial
Matriarcal da nação brasileira
Vinda do outro lado do Atlântico.
Idioma de rara beleza
Conjuntura e conjugação
Uma filigrana rebuscada
Culta e douta.
Ou chula e pobre
Feito saco de aniagem
Em usança errada,
Será que o erro egiste de fato ou fado?
Não importa os floreios
Linguísticos, cabalísticos
A não ser que os queira
Pois o entendimento virá
De todo o jeito ao seu freguês
Português, brasileiro, angolano
Cabo-verdiano, moçambicano
Guineense, timorense, são-tomense
E por aí vai, continentes afora
E ex-colônias Goa e Macau
Em poemas e palavrões
Um santo e o outro puto
Vice-versa dependendo

Do emprego de uso.

POESIA - HULHA - THIAGO LUCARINI

É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro da vida, não de morte.
João Cabral de Melo Neto

Escavei meu corpo-mina
Hulhífero em busca de pedra preciosa.
Achei sangue coagulado nas artérias
Intestinos lisos, absorventes de nutrientes
Porém baratos e pouco cheirosos.
Achei um fígado líquido
Um pâncreas sem insulina
Os rins sem filtração
Um estômago vazio.
Subindo deparei-me com um cérebro-usina
Com baixa produção de energia.
Descontente, no meio de mim, encontrei
Petrificada uma hulha vermelha.
Cristalizado e eterno, joia do corpo
Meu coração duro, negro como carvão

Todavia, totalmente poético e pulsante.