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domingo, 7 de março de 2021

TAUTOGRAMA: MULHER

 

Medusa mundana, moderna maltratada,

Mutilada, meliante, mendiga marginal.

Milenar maledicência moenda mortífera.

 

Multidão medíocre macilenta machista massacra:

“Malditas! Maça mordida, marca maior,

Máxima mancha moral, madona maligna.

 

Muitas miseráveis mentiras mesquinhas

Menosprezaram, massacraram, minimizaram

Mães misericordiosas, mulheres militantes.

 

Mágica maravilha mulher,

Máxima magnânima, majestosa.

Matuta montando milagres,

Merecendo méritos melhores.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

POESIA: AUSÊNCIA DE ROUPA - THIAGO LUCARINI

 
Feito uma roupa velha, às vezes,

Pego um amor passado e o visto.

Sempre sozinho, não ouso torná-lo

Público às lágrimas em mim.

E numa prova de resultado antes já achado,

Eu tento desamassar amarguras,

Remendar buracos deixados pelo descaso,

Em vão, atar botões feitos de ausência.

A roupa velha traz ao corpo

Um novo abraço de último adeus,

Que não serve nem aquece, mas fere, e assim,

É posta de volta na gaveta escura do coração.

 28.09.2020

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

RESENHA: ENTRE O POEMA E A POESIA EXISTE UM PONTO DE SOLIDÃO DE CALIKCIA VAZ

Poesia, a meu ver, é um processo interno, é preencher lacunas do ser ou apenas dar vazão a elas. Ninguém deve estar cheio de vazios. Não posso encarar os poemas deste livro de forma técnica, pois não tenho capacitação para isso, mas, posso esmiuçar sobre o que as palavras de Calikcia Vaz me trouxeram. Falarei das poesias num todo como uma Voz, uma personagem a ser interpretada.

Sobre o livro físico, a capa é mais que ilustrativa e bela. A qualidade da impressão do Clube dos Autores me impressionou. O livro é muito bem editado. Há pequenas ilustrações que compõem um arranjo perfeito. É nítido o cuidado da autora com sua obra, e isso, é sempre admirável.

A antologia, Entre o Poema e a Poesia Existe um Ponto de Solidão, é composta por quatro atos: Meus primeiros versos, Amanhecer, Entardecer e Ao cair da noite, que traz em seu cerne uma homogeneidade e linearidade muito bem-vindas.

Que fique claro; este não é um livro de poesias felizes, não há um grande ápice de felicidade ou de redenção do eu-lírico, pelo contrário, é uma Voz que se afunda em seus pensamentos, no seu distanciamento do mundo e dos outros. Algo que eu particularmente gosto muito e me trouxe à mente enquanto lia as poesias pessimistas e de somenos de Cruz e Souza ou mesmo de Augusto dos Anjos.   

Pode-se reconhecer na Voz as agruras de uma vida, a perturbação da desilusão do amor e do abandono misturados a um excesso de carência e necessidade de aceitação. Quem nunca? Os versos de Calikcia são carregados de penúria e lamento, da busca daquilo que poderia ter sido, claramente, aprisionados em ecos de um passado idealizado que prometeu felicidade e não entregou. A Voz desestabilizada acostumou-se com a tristeza dos dias e mente ao dizer o contrário, o que a impede, de seguir, de fato, adiante. A Voz habita na falta. É um eu-lírico que vacila em busca de completude e autorrealização no outro, nunca em si, claros nos poemas: Apenas um alguém e Nada encontrei.

Entre o Poema e a Poesia Existe um Ponto de Solidão de CalikciaVaz não é uma coletânea poética para quem busca emoções de felicidade instantânea, ao invés disso, é uma descida visceral ao fundo do poço, é encarar de frente a desilusão e o abandono, a morte física ou idealizada de um pseudo-amor que mais tirou do que deu.

É a amostra pura e desnuda de uma alma que visivelmente busca correspondência de vida, cura e redenção, mais que amor. E, uma obra assim, verdadeira, fala mais de nós, do que gostaríamos de reconhecer.

Thiago Lucarini