sábado, 13 de janeiro de 2018

POESIA - ATRAVÉS DAS HORAS ESCURAS - THIAGO LUCARINI

No meio da noite
Só meu travesseiro sabe
Quantas lágrimas eu derramo
Em compensação a felicidade
Mantida durante o dia.
Através das horas escuras
Sou frágil, fraco, falho, humano.
A chuva que acontece lá fora
Coabita aquilo que se passa
Aqui dentro do quarto fechado.
E qualquer estrela errante ou tardia
É voto de amanhecer ou novo amor.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

POESIA - ÀS RUGAS QUE AINDA NÃO TENHO - THIAGO LUCARINI

Quando as rugas
Enfim invadirem meu rosto
Desejo que versejem
Sobre marcantes sorrisos
Beijos roubados e oferecidos
Expressões de doce amor
Sussurros sísmicos e passageiros
Olhares trocados em segredo
E algumas lágrimas de vários motivos.
Quero que minhas rugas sejam um mapa
Da alma que compus durante toda
A trajetória florida da minha vida.
Que sejam a representação fiel do que fui
E que eu encontre em cada linha talhada
O acesso aos remotos tempos felizes de ontem.  

POESIA - ESPAÇO, SILÊNCIO E AMOR - THIAGO LUCARINI

Questiono o humano em mim
Para tentar elucidar qual a dosagem certa
Entre espaço, silêncio e amor.
Como não fazer do espaço: distância,
Do silêncio: morte e do amor: ódio.
Qual é o domínio comum entre duas almas?
E o que distingue a tangência do outro
Mesmo quando envoltos em promissor amor?
São três simples elementos de convívio
Que facilmente podem ser colher de mel
Ou amargo fel de envenenamento rápido.
Como identificar a que parte do estranho eu não pertenço
E saber valorizar, respeitar essa particularidade
Para não me dissolver a medida do reflexo
Tornando-me insubstancial e desfavorável.
Espero ser capaz de fazer do espaço: propriedade,
Do silêncio: reflexão contínua e do amor:
Alicerce de poder a todo cultivo e estrutura.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

POESIA - CERCAS E REDOMA - THIAGO LUCARINI

Construí por tempo demais
Cercas perfeitamente brancas
E uma redoma altíssima
Ao redor do frágil de mim.
Assim pensei ser fortaleza
A prova de falhas e de amores.
Só que o tiro saiu pela culatra
Minhas cercas e redoma esteticamente
Erguidas e estéreis mantinham
Tudo do lado de fora, sonhos,
Inclusive a promessa de vida.
Quando, enfim, me dei conta
Da atrocidade cometida
Que defesa absoluta é solidão
Comecei a carear minhas cercas,
Trincar e abalar a redoma. Convidei
Pragas e amores, chuva e vento.
Beijei a variabilidade dos dias
Fiz-me mais forte na instabilidade
E descobri o valor do sol sobre a face
Exposta no agridoce do tempo e sentimentos.

POESIA - EU ESTOU AQUI - THIAGO LUCARINI

Eu estou aqui.
Estou pela primeira vez
Em mim.
Não há prêmio maior.
Um joelho ralado,
Uma lágrima tombada,
Uma cama vazia
Tudo parece menor.
Tenho a sorte do jardim
Creio que estando em mim
Cresci de um jeito que não percebi.
Eu estou aqui
Dono da minha alma,
Caminhos e palavras.
Eu estou aqui
Pertencente ao instante.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

POESIA - COROA CAÍDA - THIAGO LUCARINI

Segui o caminho da vida.
Durante a jornada
Machuquei meus pés
Eles encheram-se de bolhas,
Calos e cortes
Um anjo — eu — caiu do céu,
E perdeu sua inocência
Extirpada por mãos de ferro
E jugo funesto.
Confesso:
— Doeu demais!
Havia dias insuportáveis
Onde meus pé[cados]
E pedaços de mim
Acumularam-se pelo caminho.
Carreguei meu fardo
A cruz do meu calvário
Sob a chuva da tristeza
Dialoguei com a morte
Sepultei os meus mortos
E de outros também.
Porém o maior enterro
Fora o do meu coração
Prestei condolências
No meu próprio funeral.
Lágrimas caíram
Minha alma partia-se em cacos
O caos governava
Minha coroa-auréola
Caiu enferrujada e sem tempo,
Cicatrizes ganhavam cores e formas
Na carne, no ser e na mente,
Tornaram-se um mapa da dor.
Perdi-me de mim na trajetória
Na loucura não sabia mais
Se eu era anjo ou humano
Escolhi ser gente, pessoa,
Um vulgar ordinário
Deixei a santidade
A cargo dos Santos.
Conversando com meus fantasmas,
Diante do abismo,
Tornei-me colecionador de feridas
Guardando-as na pele
E na parte subjetiva mais intrínseca.
Todavia, num dado momento
Após a derradeira súplica
Sacudi a poeira
Dei mais um passo
Ensanguentado e dolorido
Dando as costas ao abismo.
Achei o caminho inverso
E uma flor de bálsamo
Refiz minhas asas
Sob a sombra do relógio
Soprou a brisa da alma
Fora me dado a santa remissão
Deus estendeu a sua misericórdia
Numa alfombra amenizando as pedras
Então, apoiado nos sonhos, na fé,
E na beleza dos dias de infinito azul
Simplesmente segui,
Pois o incrível em ser humano é
Que todo aquele que crê
Tem a capacidade
De se reconstruir
A partir do luto e do pó.
E mais uma vez coroar-se
Rei de si e filho do Pai.

POESIA - SUSSURROS SÍSMICOS - THIAGO LUCARINI

Nunca havia passado por isso
Até escutar a sua voz, este som de alma
Que abalou minha desleal estrutura.
Sua voz me desmonta inteiramente
Derrete meus ossos feito manteiga
Arrepia-me feito calor de boa promessa.
Poderia escutar-te eternamente
Devaneando sobre amores puros
E atos completamente indecentes
Envoltos em sísmicos sussurros.
Sua voz é martelo sobre minhas barreiras
É chamado à perdição da minha sanidade
É chave para eu deixar toda a minha dignidade
E ser uma feliz poça de prazer aos seus pés.