sexta-feira, 10 de novembro de 2017

POESIA - GUARDA-CHUVA DESIDRATADO - THIAGO LUCARINI

Estive de pé
Todo este tempo
Suportando os temporais.
O guarda-chuva secou
Feito velha flor.
Fiquei ao relento
Dia e noite, desidratando,
Bebendo água salgada,
Sendo regado pelo céu.
O caminho invariável
Continuou estéril e implacável
Sem se importar com a dor-farol
Cravada no meu peito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

POESIA - A ENTIDADE DA IDENTIDADE - THIAGO LUCARINI

Olhar-se no espelho
E calar-se ante a aparição
Das mutabilidades do eu.
Bom mau feio bonito
Caridoso invejoso amoroso
Tantos outros, tudo sou.
A mim compete lapidar
Porém não extinguir de todo
É lícito e precioso ser vário.
Os olhos clamam agouro,
O corpo é fantasma exposto,
De carne e osso, nada translúcido.
A entidade que a identidade
Me oferece é variável, diária,
De doçuras e penúrias múltiplas
E o espelho é lápide sem epitáfio. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

POESIA - ÁRVORE TOMBADA - THIAGO LUCARINI

Fui ruindo
Por dentro.
Recolhi as folhas
Desisti das flores
Dos novos frutos
De ser outra semente
Abandonei os ninhos.
Restaram galhos secos
E ali permiti
Cupins comerem
Minhas raízes.
Assim, caí de joelhos
Aos prantos para ser carvão.

POESIA - QUANDO A NEVE CHEGAR - THIAGO LUCARINI

Quando, enfim, a neve
Sobre mim chegar
Terei eu alguém
Para me estender a mão?
Aplacar meus tremores?
Guiar-me além da baça visão?
Quando a neve chegar
Terei eu o verão de um sorriso?
Qual calor sustentará meu coração?

POESIA - QUANDO A NEVE CHEGAR - THIAGO LUCARINI

Criaturas de vida pequena não têm sono,
Pois o tempo é curto demais para sonhos.
A ilusão é medida por suspiros vividos,
Voos celestes, mergulhos inesquecíveis,
A cópula de continuação dos minutos,
Período de permanência sob a luz do sol ou da lua,
O toque de partida da chuva em deflagração. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

POESIA - VITRINE - THIAGO LUCARINI

Tantos sendo vitrine
Mercadoria no seu próprio
Mercado de solidão.
Vitrine é exposição
Mantida por vidro fraco
Por mera ilusão de posse
E o produto além das falhas,
Das muralhas de aceitação
Depois de um prazo
De uso aceitável
É descartado   
No lixo de si: vitrine.

POESIA - MASSA DE MODELAR - THIAGO LUCARINI

Quando meu corpo
Descer à sepultura
Pouse-o com ternura
Em respeito ao vivo
Que sob a luz fui
Em retribuição a alma,
Da qual, a morte me desligou.
A sete palmos na solidão do silêncio
Entre vermes e minhocas, minha carne
Sem habitante, enfim, voltará
A sua natureza primeira: pó.
Massa de modelar para outra vida.