segunda-feira, 21 de março de 2016

POESIA - AFOGADOS - THIAGO LUCARINI

A descoberta do afogado
Deste novo mundo aquático
É delicada e calma.
O sol reflete na água alta
Seus cabelos de halo equóreo
Desenrolam-se em labirintos.
O afogado desconhece seu corpo
Nesta nova atuação em osmose
Onde tudo passa por ele.
Agora suas células inchadas
Sem qualquer trava
Dão acesso a tudo.
Não há mais barreiras
Fechaduras no corpo afogado,
Que se dissolvendo aos poucos

Logo será parte da imensidão.

POESIA - LIMBO - THIAGO LUCARINI

Essas paredes brancas
Cheias de falsas ranhuras
Como se dissesse com candura
Que tenho alguma chance de sair.
Essas paredes cheias de heras
Perdidas em eras, aquém
Do tempo, última paragem
Meus pés em eterna soldagem
Nesta barragem do nada
Neste recinto, o limbo, além
Das três esferas etéreas
Céu, inferno e terra.
Aqui só há o vazio e o pensamento
A pior combinação para uma alma

Destinada a pôr sua sanidade na eternidade. 

POESIA - CICATRIZ DA MODERNIDADE - THIAGO LUICARINI

A cidade se derrama pelas beiradas
Saindo de sua orla e limites
Levando em sua onda de barracos
E asfalto, a cicatriz da modernidade.
A cidade avança sobre o campo
Um mar de concreto asfixiante.
O monstro feito de aço se ergue
Expelindo fumaça, alimentando
Coisas e seres maus. A cidade
Virulenta se derrama sobre tudo,
Abrigando em suas sombras
Homens e vermes. Aqui há pouca luz.

POESIA - BOLA DE PAPEL - THIAGO LUCARINI

Fizeste do meu coração
Uma bola de papel inorgânica
Usando-o para rascunho
Dos seus frígidos sentimentos
E borrando as palavras mágicas
Surradas, escritas e não ditas
Das paredes e colunas de sustentação.
Este pobre coração amassado,
Disforme e ferido esvaí-se
De toda a sua compostura
De até então, uma vez maltratado
Um coração de papel é difícil
De apagar as rugas e cicatrizes

Deixadas por um pseudo-amor.

POESIA - FORJA - THIAGO LUCARINI

Alma forjada
Em lágrimas
Essa dor não passa?
Porque vive desesperada?
Inchada?
Condição inata?
Quebrada?
Vira-lata?
Alma amada
Trincada
Será que um dia

Tudo isso acaba?

sexta-feira, 18 de março de 2016

POESIA - FOLHAS E FLORES (ESTRELAS DE PRIMAVERA) - THIAGO LUCARINI



A última folha
Do outono caiu.

Tempo corrido
O gelo agora derrete.

O galho saído
Da latência do inverno

Sente toda sua pele
Coçar, latejar de vontade

De cobrir-se de folhas e flores
Deixando para trás a inércia nua.

A casca efervescente entra em erupção
E sorri belos rebentos e botões coloridos

Estrelas de primavera no céu feito de casca
Folhas se desenrolam e flores desabrocham

A árvore viceja seu canto verde ao vento
Vestida de novo para ser abrigo dos passarinhos

E esperar em cálidos sonhos perfumados
A festa dos frutos no verão.

POESIA - TIGRES - THIAGO LUCARINI



Um casal de tigres
Tiveram filhotes.

Eles eram corretos
Em sua conduta

E postura dentro
De seu hábitat.

Eram líderes bons, admirados
Atuavam de acordo

Com que a situação exigia
Ora brandos, oras firmes.

A chegada dos filhotes
Fora aguarda com ansiedade.

O dia de a tigresa parir chegou
O macho ficou ao seu lado.

Nasceram dois filhotinhos.
Os tigres aos vê-los

Caíram em pesados pratos,
E cada um sem titubear comeu

Um dos filhotes fracos.
Por mais que se seja racional

Alguns instintos primevos sempre
Estarão entranhados no comportamento.