sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

POESIA - AREIA SECA - THIAGO LUCARINI

Areia seca
Cai dos meus olhos

Arranhando, machucando
Deixando-os vermelhos

Esvaindo o deserto
De sentimental, atrás deles.

Areia seca
Cai dos meus olhos

Vertendo como areia
Do tempo, numa ampulheta

Hialina e triste. Cai areia
A conta-gotas, grão por grão

Como se fossem irremediáveis
Lágrimas secas, deixando

Um rastro como João e Maria
Mas não acho caminho de volta

Nesta areia deixada na estrada da vida.
Sigo sozinho com meus passos empoeirados

Aguardando alguma chuva milagrosa

Neste eu desértico e seco.

SONETO - FETICHE - THIAGO LUCARINI

Óleo escorre pelas curvas do corpo
Desliza a renda, as cordas, a cinta
Despe-se de toda a repreensão e pinta
O prazer do ego sem ser perverso ou oco.

Máscaras, fantasias, plugs, algemas, inversão,
Dupla penetração moral, voyeur, sadismo, dominação.
Quão rico é a entrega sem qualquer condenação
Da culpa martirizante. Vejo pudores sem consumação.

É quebrada a latência da consciência.
Sem se prender às fases ou perversões do pensamento
Alcança-se o êxtase pleno do momento.

Soltam-se as amarras dogmáticas. Após o gozo
O homem segue livre na dura realidade

Pois os fetiches do prazer conservam a sanidade.

POESIA - A PSICOLOGIA DE UM DEMENTE QUE SE ACHA APAIXONADO - THIAGO LUCARINI

Palavras perdidas sussurram para mim
Que eu não posso te ter aqui
Mas eu todo este tempo
Estive procurando você.

Eu ainda posso te sentir
Me vendo
Me querendo
Me sangrando.

Eu te quero
Mesmo me ferindo.
Eu te amo, mesmo
Que me coloque para baixo.

Seu feitiço dura uma vida inteira
Pairando sobre minha cabeça.
Além de qualquer orgulho meu
Buscarei meu eu em você.

Eu ainda posso te sentir
Não te deixarei ir
Mesmo me drenando
Me assustando.

Eu te quero
Mesmo me ferindo.
Eu te amo, mesmo que ponha

Todo o meu mundo para baixo.

POESIA - A FLECHA E A PALAVRA - THIAGO LUCARINI

A estética
Da flecha

É etérea
Perfeita

Certeira
De tiro

Derradeiro.
Que diga o Cupido

Ou Ártemis
Deusa guerreira

Com suas flechas
Da argêntea lua.

A flecha de tão certa
Equipara-se a palavra

Ambas, uma vez
Atiradas

Atingem o alvo
Sem desvio de rota.

Flecha fincada
Palavra cravada

Nenhuma delas sai

Da carne, jamais.

POESIA - TRISTEZA CRÔNICA - THIAGO LUCARINI

Lá no fundo
Da minha fita
De DNA

Há um gene
Defeituoso, uma
Lacuna de eviterno vazio

Que derrama seu nada
Pelas minhas veias,
Células e pensamentos.

Fazendo transbordar
Destes olhos frios
Chuva ácida sem milagre

A derreter este corpo
Inerte, de vibração baixa
Doente terminal

De uma tristeza crônica
Que não passa nem mata

De uma vez.

POESIA - JARDIM DE OSSOS ESQUECIDOS - THIAGO LUCARINI

A lua pálida
De face amuada brilhou
No meu jardim de ossos esquecidos
Feito nos vales da minha memória.
Ossos, estes, de gente que enterrei
Ainda em vida, e que o tempo
Carnívoro tratou de tirar a carne,
A cara, toda lembrança e sentimento.
Deixando para trás no meu
Cemitério particular e sem covas
Apenas álgidas flores brancas

De ossos esquecidos.

POESIA - FORTUNA DE POBREZA - THIAGO LUCARINI

Tenho uma montanha
De ouro aos meus pés

De que nada me adianta,
Pois não me aquece no inverno

Não conversa comigo
Nem de fato me ama.

Tenho tudo, tudo, absolutamente
Tudo material, mas nada real.

Toque de Midas maldito
Oh, fortuna de pobreza

Toda a riqueza me isolou
Do mundo bonito, tenho ouro

Convertido num rio derretido
Que escorre pelo tempo e meus dedos

Atraindo todo tipo de interesseiro

E nenhum tipo de alguém verdadeiro.