quinta-feira, 22 de março de 2018

POESIA - ESTÉRIL LOUCURA - THIAGO LUCARINI

Se fujo de mim
É porque não me agrada
As terras que habito.
Meu cerne é útero ressequido
Há falta de fertilidade,
Escasso adubo e cuidado.
Meu interior é árido, seco,
Onde toda semente pousada
Sofre para ser algo, sofre
Na tentativa de sorrir ou florir
Sendo quase sempre botão abortado.
Chuva? Só de pedra enxuta.
Sou de estéril loucura cultivado.

segunda-feira, 19 de março de 2018

POESIA - GUARDAR IMENSIDÕES - THIAGO LUCARINI

O que vejo não cabe em mim.
É maior, expansivo, não retido
Indefinidamente pela retina.
Resta ao corpo ser pequeno,
Incapaz de guardar imensidões.
Por isso, escrevo, é a tentativa
De registrar no invisível das almas
O Grandioso alicerçado por palavras.

sábado, 17 de março de 2018

POESIA - FILHOS DE HEFESTO - THIAGO LUCARINI

Mecânica orgânica
Vida artificial messiânica
Sem líquido amniótico
Frutífera num meio abiótico.
Fios, tubos, conjuntos, sistemas,
Circuitos de ignição. Anunciação:
Autômatos livres de algemas
Existência sem consumação.
Um clique. Botão apertado
Inicia-se todo o aparato
De componentes metálicos.
Humano feito máquina mortífera
Coração de ferro, cérebro de placas
Descompasso ritmado pelas facas.
Nasce uma alma forjada por Hefesto.

quinta-feira, 15 de março de 2018

POESIA - BARRO MOLDADO - THIAGO LUCARINI

Há sempre algo que falta,
Pois o barro é incompleto.
Mesmo moldado carrega em si
Traços do vazio residual ao grão,
Da instabilidade da sua matéria
De só estar agregada se úmido,
Caso contrário é poeira solta,
Dispersa à desilusão e tantos outros.
Ansiando pouso da chuva, mão artesã
Para voltar a ser parte irrisória e divisível
De algo momentâneo e disfuncional.

sábado, 10 de março de 2018

POESIA - O ROSTO QUE ESCORREU - THIAGO LUCARINI

O rosto escorreu
Feito contas de areia
Numa cristalina ampulheta
Se juntado em suas mãos
Côncavas como uma tigela.
Ali, naqueles traços amparados
Nasceu uma flor, que olhou
Para o rosto vazio, inexpressivo  
E chorou sem achar reconhecimento.
Recuperada logo do susto, a flor
Decidiu ser um Caronte naquelas
Mãos-berço-jardim. O corpo seguiu
Sem rosto, livre de venenosas vaidades
E cheio de brilhantes possibilidades
Segurando seu novo guia, uma flor
Nascida dos vestígios do desfeito eu.

POESIA - DESPERTAR - THIAGO LUCARINI

Despertar-se oceano
É o milagre transitório
De toda brava gota 
Que cumpre seu ciclo. 
Viver plenos períodos 
É a consumação verdadeira 
De algumas eternidades. 

quinta-feira, 8 de março de 2018

POESIA - ALÉM DO ÓBVIO - THIAGO LUCARINI

mais do que curvas
mulher é nuance, enigma.
mais que peito e bunda
mulher é represa e sentimento.
mais do que fragilidade
mulher é desafio e procura.
mais do que desordem verbal
mulher é conjunção e poesia.
mais do que instabilidade
mulher é entrega e devoção.
homens podem até senti-las,
ter o toque, o gosto, porém
no conjunto da obra, mulher
sempre será um ser acima,
além do imaturo óbvio deles.
por fim, mais do que santa
mulher deve ser heresia.