segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

POESIA - A MARCHA DOS PONTEIROS - THIAGO LUCARINI

Os ponteiros marcham.
São soldados invencíveis e cruéis
Não há porque se deterem
Se o meu coração tombado
Do alto de o seu pedestal falso
Ficou ferido no meio do caminho
Não há tempo para recuperar o fôlego,
Curar as feridas, esperar benevolente bálsamo.
Não importam quantas feridas fiquem para trás
Rumam duros os ponteiros às horas infinitas
Seguem mesmo quando o relógio está sem pilhas,
Pois seus corpos são espadas afiadas e cheias de pressa.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

POESIA - INSTÁVEL PENITÊNCIA - THIAGO LUCARINI

É sempre seguro estar longe.
A distância me torna inabalável,
Mas se o espaço entre nós encurta
Tudo em mim falha miseravelmente
Fico bobo, o corpo em suspensão
Sem qualquer tipo de controle,
Meus pensamentos me traem
E entregam o inseguro que sou.
Vou de altíssima montanha
À instável poeira sem grandeza.
Você é pedra que quebra em ondas
Meu estado espelho em perfeita mansidão.
Paradoxo chato do meu coração:
Estar longe é necessário remédio
E igualmente infernal penitência.

POESIA - COMO AS PEDRAS - THIAGO LUCARINI

Como as pedras duras
Durmo sem sonhos
Meu coração é rocha estéril
E na noite escura é ferida
Para pés distraídos.
Pesado e estático
Permaneço parado
Querendo criar
Algo mais que musgo,
Deixar de ser afiada solidez
Para ser leve nuvem de anunciação.
Como as pedras
Naufrago em oceanos
De profundezas incertas
E este é o meu traiçoeiro
Voo líquido. 

POESIA - DECOMPOR - THIAGO LUCARINI

Olhei as flores
Aquilo que no ‘agora’ são
Até deixarem de ser.
Tenho a arte de pelo olhar
Decompor algo no tempo,
Pela retina ampliar sua ação.
Após desfeitas as flores
Cerra-se também meu olhar
E vou-me cego a procurar
Outro algo para contemplar
O rico fim em nós. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

POESIA - ACIMA DA LÍNGUA - THIAGO LUCARINI

O silêncio não me responde 
Sua função é ser mudo
Calar todas as palavras 
Residentes na boca 
Nada dizer sobre o tempo. 
Assim, acima da língua
Podem gritar escandalosamente 
Os inefáveis pensamentos
Que tentam me vencer
Sobre a face do dia.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

POESIA - UM QUILATE DE PEDRA - THIAGO LUCARINI

Feito uma Medusa inversa
Sem medo de ser pedra por fora
Mas já sendo dura pedra por dentro
Olhei-me no surdo espelho
Não criei sólida estátua de mim,
Contudo, saiu andando de fininho
Meu reflexo aberto e incompleto
Querendo fazer-se outra imagem
Imbuir-se de nova leitura,
De resplandecente luz subversiva
Querendo ser liso ouro de tolo, quilates de promessa,
A ter que vestir a velha pele de pedra fria,
Porém o cansaço da dor é largo
Percebe-se isso nos meus olhos fundos
E no fundo do meu olhar sem rumo.
Meu eu falso e feliz finge ser
Mais que um espectro de luminescência artificial.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

POESIA - AMOR É ANZOL - THIAGO LUCARINI

Feito um peixe ingênuo e faminto
Que desatento engole o anzol,
A linha e a chumbada pesada
É o coração que distraído morde
A suculenta isca posta pelo amor.
Certamente enquanto não fisgado
O peixe sem ser extraído da água
Terá a sensação de plena saciedade,
Porém este sempre estará preso
A uma força maior incontrolável
E coaduna a plenitude episódica
Residirá a preocupação constante
De o anzol de aço frio ser puxado,
Ser vômito contrário rasgando tudo,
Deixando para trás em tragédia amarga
(sem morte imbricada)
Um estômago ferido
(num casulo de escamas de nácar)
Ou um coração eviscerado
(num casulo fechado, porém trincado).