quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

POESIA - FACETAS AZUIS - THIAGO LUCARINI

Tenho eu
Chamas azuis
Queimando solidão 
Dentro do peito.
Soltando densa fumaça 
Embaçando minha visão.
Arde feito um pedaço 
Do inferno dentro da carne.
Cansado de toda dor 
Fruto da lenha da inércia
Resolvi mudar
Dar outro sentido 
Ao fogo frio em mim.
Restam algumas facetas azuis 
Porém gradativamente
Vou ganhando novas cores
E um calor mais aconchegante .
Devagarzinho vou ressignificando
O inferno em Paraíso.

CRÔNICA - A IMAGEM E SEMELHANÇA - THIAGO LUCARINI


O que me define, por vezes, é a mente coletiva ofensiva. Somos feitos a imagem e semelhança do outro 'melhor' sem ser. Adequações de padrões, de comportamentos, de formas, de fôrmas, do sorriso, da cor, de tudo o que gera individualidade e originalidade. Como ser feliz comigo mesmo sendo baixo, gordo, careca, pobre, negro, mulher, brasileiro. Por que eu deveria ser feliz sem todos os atributos de perfeição que me são diariamente expostos? Como não querer a vida de glória e beleza que tantos estampam nas cordas dos dias? Devo, obviamente, mascarar minha dor de dente, minha cabeça latejante, minhas costas doloridas, meus pés cansadas, minha fadiga de sustentar inverdades, uma vez que, qualquer deslize de fraqueza é pecado capital. Ignoro minha imagem única e busco muletas para amparar meu descontentamento e falta de humor nesta jornada de dissociar o que sou para assimilar algo que não me corresponde nem me faz feliz. Manter a felicidade artificial é um processo mutilador e torturante. Existem quantos sorrisos plásticos por aí que são feridas imaculadamente e assepticamente  abertas? Quantos corpos definham sua verdade em agonia? Feito eu a imagem e semelhança de tantos, fico diluído, sou nada, provido de uma identidade inferiorizada que não tem eco algum dentro de mim. Oco, tento em vão preencher o meu vazio com tantos outros igualmente vazios, e assim, perecemos, pois nunca seremos capazes de fornecer completude um ao outro.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

POESIA - O TOM DA PALAVRA - THIAGO LUCARINI

A palavra define meu tom
Todas as nuances do que sou.
Palavra me é carne, sangue e coração
É a fé da minha alma pouco pragmática
Contida em lágrimas, sorrisos e devaneios.
É nome do amor, verbo, substantivo
É significado dócil, porém exagerado
É matéria, adubo e decomposição.
Posso por ela ser poesia ou sina 
Mutável condição do existir
Conjugado em períodos de tempo
Num entendimento subjetivo, empírico
E absolutamente humano feito do dito.

POESIA - AGULHAS E AÇÚCARES - THIAGO LUCARINI

Nas agulhas do tempo
Fui desfazendo-me
Grão por grão
Do meu singelo açúcar,
Fui deixando de ser palatável,
Agradável ao social comum.
Azedei-me, pois perdi
Todo o refinamento,
Toda a branquitude cristalina
De um algo processado 
A favor de outros gostos.
Ao ruir de toda doçura imposta 
Descobri-me em mim, sincero.
Boa cana dura e resistente ao corte.
Longe das línguas das agulhas do tempo
Guardo, ainda, um pouco 
De bom açúcar, mas este é poético,
E sirvo tão somente aos diletos.

POESIA - INABALÁVEL UTOPIA - THIAGO LUCARINI

Fraquejar nunca foi tão fácil
Vacilo vulnerável sobre meus pés.

Hoje à noite a possibilidade
Da solidão eterna me assusta.

O vazio não me é mais
Opção de vasta companhia.

Quero ter o toque das suas mãos,
Morar no infinito do seu sorriso.

Anseio que tudo dê certo sem liquidez
E que um laço inabalável nos una.

Todavia, sigo apenas sonhando,
Imaginando uma utopia tão somente 

Distante.

POESIA - A MORTALHA - THIAGO LUCARINI

O amor talha?
Feito sensível leite 
Deixado ao tempo imoral
Sem os devidos cuidados 
De armazenamento no coração
Certamente o amor talha 
Dá ranço, azedume, gosto duvidoso 
Propenso a causar más sensações
À alma de quem ousa
Neste estágio precário prová-lo.
E então aquele que poderia matar
A fome torna-se peste, doença.
Passa de bênção à terrível infecção
Dando ao coração sôfrego
Triste mortalha coagulada
Revestida de azeda solidão.

POESIA - O CICLO DA ONDA - THIAGO LUCARINI

Sou onda
Empurrada pelo vento
De alturas e declínios
Procurando rebentação
Para reiniciar todo o ciclo.
A beleza da vida 
É se refazer das bolhas,
Da lama ou da delicadeza
Indo da tempestade à calmaria,
Cair e reerguer-se, ser nada ou oceano
Ora ser travessia pra ser afogado.
Sou onda, água, chuva, infinito.