segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

POESIA - ARMA APONTADA - THIAGO LUCARINI



 
O amor é uma arma
Apontada para a cabeça,
Pois estoura qualquer
Pensamento que não seja
Redigido pelo parco critério
De um coração apaixonado.

O amor é revoada
De borboletas, na selva
Vestida de relva madura.
Um turbilhão de cores
E leveza indo rumo
Ao abstrato arco-íris
Morar sob o pote de ouro.

O amor é vaga-lumes
Na densa noite.
Luz em ascensão
No corpo do breu
Terreno e vulgar
Elevando toda matéria
Humana ao patamar
Divino com um elo
Estabelecido pelo
Mais nobre de todos
Os sentimentos criados.

POESIA - SR. CÔMODO PARADO - THIAGO LUCARINI



 
O Sr. Cômodo Parado
Era um velho estático.
Fora um embrião quieto
Uma criança sonolenta
Um jovem vegetativo
Um adulto moroso e imóvel
Sua languidez cansa até as preguiças
Sua inércia é invejável pelas estátuas.
Não existe nada mais basal
Que o Sr. Cômodo Parado.                               
As plantas têm mais movimento que ele
Não, não, ele não está em coma
Não que faça muita diferença
Se ele estivesse preso a um leito.
O Sr. Cômodo Parado é um caso raro
Um espectro de gente, uma cópia de poste
O cúmulo da letargia e comodismo
O rei nato do sedentarismo.
Um homem eterno, pois
Para ele até o ato de morrer
Daria trabalho demais.

POESIA - FALO DO DIABO - THIAGO LUCARINI



 
Vi aquele senhor fumando
Na rodoviária do Talvez
Por um instante o ato sacro
Pareceu-me bom e saboroso
Ah tentação do falo do diabo.
Observo vulgar a cena:
Cigarro entre os dedos
Fumaça anestésica
Sobe embaçando
A alma impregnada.
Tabaco aceso
Exala nicotina
Vício em brasa
Falsa luz fumarenta
Vaga-lume temporário
Dos lábios tragantes.
O ônibus dá a partida
Acabou-se minha análise.
O velho, bem, continuou
Fumando seu cigarro até a guimba.