segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

POESIA - OS BRANCOS OSSOS DA ROSA - THIAGO LUCARINI

Quem já viu
Os brancos ossos de uma rosa vermelha?

Uma perfeita fratura da beleza
De tamanha ambição e pureza?

Ver ossos tão brancos e polidos
Entre o vermelho denso e macio

É uma visão para poucos escolhidos.
A rosa curvou-se em excesso para ver

Como estavam se saindo suas vizinhas,
Um vento mais forte sobre ela se abateu e quebrou sua espinha.

Ficou a rosa vermelha tortinha, tortinha.
Com uma fratura exposta exalando perfume e dor.

A vaidade é uma faca traiçoeira
E certamente pode estrangular a beleza.

Quem já viu
Os brancos ossos de uma rosa vermelha?

POESIA - DOS LÍRIOS E VÍCIOS - THIAGO LUCARINI

O corpo é um campo
De fértil cultivo.

Dele saem os lírios,
Dourados sentires.

E os inebriantes vícios
Corruptores da normalidade.

Os vícios são as pragas
Que corroem alguns lírios

Nem todos sucumbem ao mal,
Porém podem ser enfraquecidos.

Sobre o corpo lutam diariamente
Os dourados lírios e os corruptores vícios.

Cabe a cada um de nós o cultivo
E a formação de cada campo solo.

POESIA - FLOR DE DOR - THIAGO LUCARINI

Abriu no corpo
Uma flor, mas não

Uma bela flor. Era flor feia,
Flor de dor, flor cristalizada,

De arestas afiadas, a tapar
O fluxo, o expurgo. Bloqueado

O lúmen, inicia-se o inchaço,
A água sem cura retorna ao filtro,

Fecha-se o mundo por uma flor de dor,
Um duro cálculo sem conta matemática.  

POESIA - CÉU - THIAGO LUCARINI

O céu despido de esplendor
É apenas um manto azul.

O céu sem suas estrelas
É apenas um forro de chuva.

O céu mistificado pelo homem
É apenas um véu para o além.

O céu nu das suas nuvens
É apenas um varal sem roupas.

O céu sem sol e amor
É apenas um firmamento abalado.

O céu sem mágica instabilidade
É apenas mais um algo morto.   

POESIA - OLHOS EMBAÇADOS - THIAGO LUCARINI

Desembace o primor dos teus olhos,
Retire este véu de ranço e carne de ultraje.

Veja a vida livre de impedimentos e misérias,
Mas não se esqueça das falhas dos homens.

Aprecie as cores que compõem cada dia
E na ausência delas seja sua própria cor

Ou luz para dar sentido às coisas descoloridas.
Não cegue teus olhos com ignorância, abra-os

Pela simplicidade e pequenez, enxergue a imensidão
Que reside num ato humilde, limpe teus olhos da dureza posta.

Veja através da poesia toda a delicadeza
Que a vida acelerada do dia a dia nos tira.

POESIA - ACRÓSTICO - THIAGO LUCARINI

Palavras do carvão dos dedos
Orientam o alvo ofício
Elucidam o escuro caminho
Transpõem eternidades e imensidões
Alegrando almas, amores, gente.

POESIA - O VELHO RUSSO URSO DE BUÇO - THIAGO LUCARINI

O velho russo
Tinha buço e um urso.

Certamente, pelos tinha
O russo, o buço e o urso.

O buço obtuso não reconhecia
Se pertencia ao russo ou ao urso.

O urso com soluço não sabia
Se era russo ou se tinha buço.

No fim, o homem era russo, o buço alvo
De desuso e o urso apenas um intruso.