sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

POESIA - LINHAS BORRADAS - THIAGO LUCARINI

As linhas do macio papel estão borradas
Mancharam-se com minhas lágrimas quentes

Ao te escrever minhas últimas palavras.
Devido aos borrões não sei se compreenderá

Tudo aquilo que eu quis dizer nestas linhas.
Sei que são poucas, mas têm grande expressão,

Pois foram escritas com o carvão do meu coração.
Não quis eu reescrevê-la por conta das manchas,

Os defeitos das linhas montam a perfeição pretendida.
Segue abaixo, a carta anexada, e todo o meu sentimento.

POESIA - O PRATO E O PREGO - THIAGO LUCARINI

O prato e o prego
Sobre a mesa posta.

O prato redondo e vazio
O prego agudo e profundo.

O prato quer se encher
O prego quer morder,

Porém continuam
Cheios de plena fome.

Não há jantar,
Promessas ou velas.

Sôfregos, atracam-se
O prato e o prego.

O prato parte seu vazio
O prego quebra seu dente.

Mataram-se, inúteis,
Mas não se livraram da fome.

POESIA - ATADOS - THIAGO LUCARINI

Felicidade é encontrar
No teu sorriso a marca do meu olhar.

Achar na tua pele arrepiada
As impressões precisas dos meus dedos.

Sentir nas tuas roupas amassadas
O cheiro do meu perfume entremeado.

Ver aceso entre tuas formosas pernas
A chama do nosso paraíso construído.

Felicidade é ter você na minha vida.
Nós entrelaçados num laço que não desata.

POESIA - O NASCER DE UMA ESTRELA - THIAGO LUCARINI

Naquele céu
Ingrato e ferido

Não havia estrela.
Era total escuridão,

Desconhecida negritude.
Um grão de poeira

Inconformado com aquele
Breu absoluto e desinteressante

Incendiou-se em sua fé peculiar
E brilhou nas eras de escuridão

Até então inquebrantável
Iluminado vidas antes tão perdidas.

POESIA - CACO DE ILUSÃO - THIAGO LUCARINI

Caco de vidro no olho
Ilusão que fica ferindo

A mucosa ocular inerme.
Dá a ilusão ao olho, belas

Projeções, porém impossíveis
De se realizar, chegar, tocar.

Rapidamente, o olho incha, fica vermelho,
Dói, começa a ter febris alucinações.

O caco de ilusão perdida permanece
Entre o olho e a pálpebra arranhando,

Incomodando, criando ranhuras até o seu hospedeiro
Conseguir extirpar de si, tal doloroso caco espinho.

POESIA - MINHOCA DESMEMORIADA - THIAGO LUCARINI

Uma minhoca perdeu sua memória
Não sabia mais se ela era minhoca,
Cobra, corda, canudo, arame, fio, rolha,

Lombriga, vagem, bexiga fina, macarrão.
Andava a minhoca incerta da sua identidade
Perguntava-se por que motivo fugiu-lhe a memória.

A todos os desconhecidos que por ela passava
Questionava a minhoca se não pertencia a sua família.
Tudo que era comprido e roliço confundia a pobrezinha.

Desmemoriada, a minhoca se meteu em cada apuro.
Entrou num ninho de cobras pouco simpáticas e venenosas,
Engalfinhou-se num doído rolo de arame farpado

E noutro de fedido fumo fumacento.
A minhoca vagou insegura até que achou
Uma colônia de férias de outras minhocas

Que a recebeu, e lhe disse, enfim, o que ela era.
Assim, como se fosse mágica, num clique revelador
A minhoca desmemoriada voltou a lembrar-se da sua vida.

Feliz e completa foi-se embora
A minhoca com suas amigas da colônia de férias
Curtir novas praias sem se confundir outra vez.

POESIA - METADES - THIAGO LUCARINI

Meia vela
Meio pão

Meia cama
Meia mesa

Meia-água
Meia família

O pai morreu
No meio-fio

Meia família
Meio-sangue

Meia tristeza
Meia alegria

Meia luz
Meia verdade

Meio-claro
Meio-voo

Meia
Meia

É sofrimento
Completo.