sexta-feira, 2 de setembro de 2016

POESIA - PODA AS ASAS - THIAGO LUCARINI

O amor
Tem das suas peripécias
Precisa apenas
De uma alma sadia
Para criar raízes
O resto é subjetivo.
Limitar o amor
É podar suas asas,
Seus voos de infinitas
Possibilidades e verdades.
O amor não é rótulo,
Não é um padrão fixo,
Não é uma imposição.
O amor é sentir
Simples assim.

POESIA - REVOLUÇÃO DA CRISÁLIDA - THIAGO LUCARINI

Construirei com fios
De arame farpado
Asas de metamorfose.

Por tempo demais
Fui crisálida fria
À sombra do tempo.

Neste estado basal
A vida diminuiu,
Retraiu-se à inutilidade.

Quero transpor as constelações mornas
Do lado de dentro desta casca glacial
Para o céu neutro do lado de fora.

Dói construir novas asas
Dói sair da inércia, porém
Dói mais continuar estagnado.

Fiarei estas asas com sacrifício
Pregarei os botões de nova roupa
E logo estarei pronto para voar.

Prefiro sofrer hoje
Para depois curar,
Ao invés de sofrer sempre.

POESIA - NÚPCIAS COM AFTAS - THIAGO LUCARINI

Cratera esbranquiçada
Um véu de uma noiva exposta
A romper a delicada mucosa.

Das desorganizações corporais
E estomacais, insistentes elas florescem.
A boca cansada da resistência dos dentes

Tem sua erupção pouco virtuosa
Por todo lado, estrelas de dores espocam.
Está a boca de núpcias com as aftas. 

POESIA - VAZAMOS UM POUCO DE GÁS - THIAGO LUCARINI

Estamos vazando
O gás do nosso hálito

Marcescíveis nós enrugamos
Marcas profundas nos mancham.

Ganhamos gravidade
Ao perder o ar quente

Para o ambiente frio.
O cordão que nos sustentava em órbita

Partiu-se, o nó de manutenção se desfez
Como se não bastasse havia um espinho.

Furados vazamos um pouquinho de gás
Por vez, somos balões em decadência,

Sem o esplendor, sem o céu, sem a lisura
Da superfície perfeita, murchos caímos.

POESIA - SIMILESCÊNCIA - THIAGO LUCARINI

Curvas côncavas se juntam
Meias-luas também, e eu

Fico preso nestas circunferências
De infindáveis labirintos sem canto.

Dou voltas de 360º no círculo, e em mim
Não acho inferência de onde está o fim.

Perdido nesta bolha, enclausurado e enlouquecendo
Não acho sequer uma ponta desconexa para bater a cabeça.

Padeço neste orbitante lugar redondo
De rotação para o mal, sua vil similescência

Vai de encontro às armadilhas do meu pensamento.
Não há escapatória, porta de saída, uma vez que,

Não se foge do mundo, a não ser pela morte,
E nem do pensamento, deste, nem com a morte.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

CONTO: ÁRVORE SECA - THIAGO LUCARINI

Estática no meio de um jardim de plástico e hipocrisia, Árvore Seca, um dia fora à fonte de proventos daquele lar de flores miseráveis, arraigadas naquele solo infértil e regado com ingratidão. Sem medir esforços fazia de sua seiva, sangue. Dos seus galhos que trabalhavam dia e noite, nasciam os frutos para alimentar e aplacar sua cria faminta de anseios e sedenta por consolo e compreensão.
Entretanto, o avançar do tempo não é gentil com ninguém. Árvore Seca no passado foi jovem e bela, verdejante e frondosa, de casca forte, lisa e brilhante e raízes resistentes. Árvore jovem como era desejava alcançar o céu e abraçar o mundo com seus braços de madeira impetuosa. Sua copa majestosa que transbordava florescência fora ninho para pássaros-pensamentos e parque de diversão para crianças travessas. Hoje, Árvore Seca não possui atrativo algum, mal se sustenta de pé, o viço desapareceu deixando para trás o asco, as folhas caíram e os galhos restantes caem aos poucos apodrecidos e deterioram-se em terra pobre de emoção, sua casca agora enrugada, maltratada e quebradiça não tem a beleza de outrora. Árvore Seca, que antes, era motivo de orgulho, já não passa de um trambolho feio e incômodo, tornou-se lar de ninguém, hospedeira do vazio, somente não encontrou solene fim, por ínfimo remorso daqueles que cuidam pessimamente dela.
Árvore Seca abandonada vive aos lamentos do vento da solidão. Sozinha e lesada entoa uma sinfonia de lágrimas secas, pois não encontra amor naqueles que deveriam amá-la. Ela é constantemente jogada de um lado para o outro, suas raízes cansadas e fracas já não aguentam mais. Muitos descansaram a sua sombra cálida e comeram dos seus frutos, mas agora que precisa de amparo, somente encontra desprezo. Árvore Seca é tida como inútil e incapaz, porém seus ouvidos, mesmo débeis, ouvem perfeitamente, o quê as suas sementes-germinadas e prósperas dizem a seu respeito e chora. Chora por não ser mais o que um dia foi. Chora pelo fim próximo, que cruelmente se arrasta para abraçá-la de vez.
Árvore Seca largada ao pó e cinzas é regada diariamente com esquecimento, apenas observa a vida e pede a ela internamente que suas sementes não paguem pelo o sofrimento que a impuseram. Árvore Velha pode ter a aparência seca, mas seu coração não é, pulsa quente e generoso. Por isto, roga aos poderes sobrenaturais — Deus — indulgência para aqueles que a condenaram à tristeza e solidão irrevogável no fim de sua existência.
Árvore Seca se pudesse voltar no tempo, não mudaria nada do que fez por sua cria vegetativa de consciência basal e dormente, talvez, desse a eles mais sombra, água, alimentos e amor. Expandiria os seus galhos ao máximo que pudesse, e faria deles, abrigo seguro para proteger-lhes demasiadamente. Pobre e tola Árvore Seca, não percebe que o excesso de zelo foi o que tornou sua prole pífia, tão má assim. Ela só tem uma culpa — a de ser amorosa.
Sem arrependimentos. O que fora feito estava feito. Árvore Seca não iria mais reclamar, até porque, isso chateava aqueles que ela amava. Árvore Seca então esperou pela sua morte pacientemente, seu corpo definhou lentamente em arauto lúgubre, corvos a rondavam crocitando, chamando a morte. Desta forma, ela percebeu que se tornou um estorvo ainda maior, de tristeza quis mesmo morrer, e o seu desejo, em breve, seria atendido, pois aqueles que deviam sentir remorso, por tamanha crueldade, já não sentiam mais nada. Seus corações eram mais vis e áridos, que o corpo vitimizado pelo tempo da Árvore velha.
Finalmente, depois de muito debate a família da Árvore Seca decidiu pelo seu fim imediato, uma vez que ninguém queria gastar mais qualquer quantia de tempo com ela. Árvore Seca fedia a cupim e ranço e caia aos pedaços por descuido. Sim, ela lhes deu à vida, mas isso seria motivo suficiente para aguentá-la até o final dos seus dias? Tamanho sofrimento e desconforto não deviam ser impostos a eles ou a ela.
Era chegado o encerramento de um ato, a primavera dourada acabou. A libertação chegaria para todos. Decidiram que a árvore mais jovem deveria derrubar a Árvore Velha, já que nenhuma culpa recairia sobre si. Após combinado tudo, o jardim fora esvaziado e a ação tirana começou.
Árvore Seca sabia que o dia de a sua passagem para o Além Florido havia chegado, logo suas sementes-germinadas, a quem tanto amava, tomaram a decisão funesta com consciência titânica. A árvore matriarca sentiu, por um momento, saudades da infância, um brotinho embalado pela casca protetora da semente, onde a morte era apenas uma deusa do sono. Árvore Velha viu Árvore Jovem aproximar-se lentamente com a arma de execução em mãos, a juventude não escondia a maldade em sua face, nela não havia nenhum tipo de comiseração pela anciã. Árvore Seca fechou os olhos conformada e pediu pela última vez a Deus que não sentisse dor quando fosse derrubada, e de novo, pediu que suas plantinhas burras e sem coração nada sofressem no futuro, pois não eram culpadas, de fato, apenas suas almas foram corroídas por cupins malignos.
Árvore Seca sentiu a lâmina fria que ceifaria sua vida tocar sua casca frágil e desgastada. Ela, enfim, não seria mais um incômodo a ninguém. Árvore Seca suspirou conformada e aliviada, estava em paz. Rapidamente o objeto cortante rasgou sua débil casca-armadura enferrujada pela idade. Não sentiu dor. Seiva vermelha escorreu como um rio a tingir a noite sem estrelas do jardim dos mortos frios. Antes de deixar o mundo terreno por completo, escutou a última frase em tributo fúnebre da Árvore Jovem:
— Adeus vovó. — Sussurrou o neto da velha senhora sem emoção alguma.

POESIA - O PASSARINHO E A ROMÃ - THIAGO LUCARINI

No jardim de mim
O passarinho bicou
Até furar a casca dura.

O mansinho passarinho fez cair
Uma sutil chuva cor de rosa na terra.
Gotículas condensadas de doçura

No interior da nuvem-fruta.
Chove o açúcar cristalizado em joia,
Do passarinho ao abrir as gotas da romã.